Vela da Bluèsi


Assim que comecei O corpo dela e outras farras, livro de contos da Carmen Maria Machado, já fui pega no susto por uma das epígrafes do livro: "deus devia ter feito as garotas letais quanto transformou homens em monstros" (Elisabeth Hewer). O primeiro conto, “O ponto do marido”, parece pegar a deixa da citação para abordar uma violência masculina que não se manifesta da forma como nós estamos acostumados a ver. Nele, conhecemos uma mulher que vive com uma fita no pescoço que, segundo ela, não pode ser tirada em hipótese alguma. Todos respeitam a existência dessa fita sem questionar, exceto seu marido, que constantemente demonstra a vontade de arrancá-la, apenas por curiosidade.


Nos contos seguintes, o corpo feminino segue ocupando o papel de protagonista. Atravessando e sendo atravessado por afetos, violências, metamorfoses, cirurgias, mutilações, desejos... Em "Oito bocados", uma mulher faz uma cirurgia para emagrecer e passa a receber a visita de uma criatura estranha em sua casa. Já em "Mulheres de verdade têm corpos", presenciamos uma epidemia inusitada: mulheres por todo o mundo estão começando a perder a materialidade e desaparecer, tornando-se corpos transparentes.


A violência a que estão sujeitos os corpos femininos aparece com força nos dois contos, seja na preocupação com o emagrecimento, na vontade de arrancar pedaços de si mesma para caber no molde da mulher ideal, seja na imagem de mulheres cada vez mais invisíveis, tão invisíveis que se tornam fantasmáticas, perdendo aos poucos a própria humanidade.


Em vários dos contos, também chama a atenção a incidência de mulheres que se relacionam com outras mulheres. Não apenas afetivamente. Temos casais de mulheres, mas também irmãs, filhas, amigas... São mulheres que tendo o próprio corpo atravessado por inúmeras demandas e agressões eventualmente vão buscar refúgio em outras mulheres - ou, em alguns casos, também reproduzem a violência sofrida em suas relações com outras.


O corpo dela e outras farras foi a leitura em que eu mergulhei depois de terminar As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez, e é impossível não traçar um paralelo entre as duas (embora Mariana não se debruce completamente sobre a violência sofrida por corpos femininos). Carmen, ao contrário, parece fazer desse o eixo principal de seu livro, se utilizando de elementos fantásticos e eventuais acontecimentos insólitos para tratar de uma dor que é concreta e real. Afinal, ainda hoje o corpo da mulher é tratado como uma farra, embora poucas vezes nós sejamos convidadas para participar da festa.





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Atualizado: 28 de set. de 2021



Foto: Netflix


Eu sempre achei fascinante como, ao longo da História, houve tantas pessoas cometendo crimes tenebrosos sob a justificativa de estar a serviço de uma força maior. Um Deus poderoso que promete que os fins justificam os meios — ou que, depois da barbárie, vai vir alguma espécie de salvação, ressurreição, purificação, o que quer que seja. Qualquer moralidade anterior parece facilmente dobrável sob o peso dos discursos religiosos. Tudo se justifica. E os que cometem as atrocidades são muitas vezes pessoas tomadas por um senso de propósito extremamente forte. Eles se sentem escolhidos, engrandecidos pela incumbência da tarefa, se sentem convictos de que estão fazendo a coisa certa, se o que está sendo feito é um pedido de seu respectivo Deus. Parece não existir dúvida ou remorso. A convicção religiosa prevalece sobre todo o resto.


Outro aspecto do fanatismo religioso que sempre me intrigou foi a facilidade em adaptar qualquer acontecimento para que ele caiba no discurso que convém. Seja qual acontecimento for, parece sempre existir uma forma de moldá-lo para que ele sirva ao propósito que se deseja. Um pouco como aquela frase da Anais Nin que diz que nós não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos. Se você está muito disposto a acreditar no que quer que seja, é bem fácil deturpar todos os acontecimentos para que eles caibam dentro da sua crença - e sirvam para endossá-la.


Tudo isso aparece com força em Missa da meia-noite (Midnight Mass), nova série do Mike Flanagan (criador de The Haunting of Hill House e The Haunting of Bly Manor). A minissérie de terror aborda a chegada de um jovem padre (Hamish Linklater) a uma ilha com pouquíssimos moradores, praticamente moribunda e desesperada pela renovação da própria fé. Essa chegada, no entanto, vem acompanhada de alguns milagres e mistérios, que aos poucos vão envolvendo todos os moradores, fazendo com que eles mesmos revejam suas relações com a religião e a moralidade.


Uma dessas pessoas é Riley (Zach Gilford), que morava na ilha quando mais jovem. Alcoólatra, ele acaba sendo preso após atropelar e matar uma menina. Ao sair da prisão, retorna à ilha, reencontrando a família e a amiga de infância, Erin Greene (Kate Siegel). Riley é um dos personagens centrais da narrativa, se considera ateu e questiona os preceitos religiosos que parecem mover todos na região — todos, exceto o xerife Hassan (Rahul Kohli), muçulmano que constantemente enfrenta o preconceito da comunidade. Riley é ainda um personagem movido pela culpa. Assim como Joe Collie (Robert Longstreet) — um morador da ilha que também sofre com o alcoolismo e com o remorso de ter causado um acidente que deixou uma adolescente paraplégica. A presença do vício, aliás, parece servir ao propósito de trazer à tona um dos sentimentos-chave que atravessa, de uma forma ou de outra, todos os personagens: a culpa.


Em um de seus discursos, o padre chega a dizer que novos tempos exigem novos códigos de moralidade. Entortando a ética para caber onde se deseja, os religiosos da série se mostram capazes de muitas atrocidades — e até mesmo de muitas ingenuidades, chegando a acreditar que uma criatura que de angelical não tem nada poderia ser de fato um anjo. Todos os acontecimentos, enfim, se moldam para caber no discurso religioso sustentado por eles — e ai de quem ousar contrariar. Os que discordam são automaticamente transformados em inimigos, hereges, pecadores, e precisam, é claro, ser punidos.


É interessante, aliás, como esse fanatismo religioso se manifesta também de diferentes formas em alguns personagens: enquanto o padre Paul parece desesperado por acreditar (e seu desespero parece vir de um lugar de arrependimento e culpa por acontecimentos do passado), Bev Keane (Samantha Sloyan) já usa a religião para camuflar a própria crueldade e desejo de punição. É irônico, inclusive, vê-la chamando Hassan de terrorista em um dos episódios, enquanto os devotos fervorosos de sua igreja cometem as maiores barbáries possíveis sob a justificativa de estarem servindo a Deus.


Missa da meia-noite tem só 7 episódios e, ainda que comece lenta, parece subir em um crescendo de tensão, desembocando no mais completo caos. O conceito da pequena cidade tendo suas hipocrisias expostas e outros elementos me remeteram logo ao Stephen King, e até comentei no Twitter que, se o Mike Flanagan e o King tivessem um bebê, o bebê seria essa série. Apesar da influência clara, também é possível ver alguns dos traços marcantes do Flanagan, como os monólogos questionadores dos personagens e a presença dos mortos assombrando os vivos.


Mesmo adotando um estilo bem diferente das anteriores Hill House e Bly Manor (minha favorita), Missa da meia-noite me ganhou pelos questionamentos sobre moralidade, culpa e religião, além de entregar um terror daqueles que deixam a gente pensando se o que assusta mais são as criaturas sobrenaturais ou o que um ser humano é capaz de fazer.





Fotos: Netflix



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Não sei nem como começar a escrever sobre Elena Ferrante. A minha intenção, na verdade, era escrever sobre a tetralogia só quando terminasse a leitura de todos os livros, mas não consegui resistir depois de ler História do novo sobrenome. Se A amiga genial já tinha sido um mergulho, esse segundo romance da série foi como ser tragada, engolida pelo universo de Ferrante, pelas relações complexas entre os personagens do bairro e os entrelaçamentos de suas vidas — e, é claro, mais especificamente, pela amizade conturbada de Lila e Lenu.


O relacionamento entre as duas, desde a infância, já era marcado por uma mistura contraditória de rivalidade e identificação. Lenu, que narra toda a história sob seu ponto de vista, parece nutrir por Lila uma gama de sentimentos tão variada que vai da devoção completa ao eventual desprezo, passando pela dependência, necessidade de aprovação e até mesmo pela sensação de que apenas as duas são capazes de compreender uma à outra, que ambas compartilham uma verdade à qual somente elas têm acesso. Ou que, em outras situações, aparenta ser de acesso restrito à Lila, deixando Lenu angustiada diante da possibilidade de não poder participar.


Boa parte da relação delas, aliás, é construída sobre essa espécie de acesso a algo de exclusivo na vida — um acesso que ora está nas mãos de Lila, ora nas mãos de Lenu, e em certos momentos é compartilhado entre elas, mas em outros tantos é usado como arma. Para Lila, esse acesso passa primeiro pelo crescimento financeiro a partir do casamento e depois pela realização amorosa — ambas vivências que não são contempladas por Lenu, que encontra o próprio diferencial nos estudos e na construção de uma carreira. Ao longo da história, é interessante acompanhar como as duas alternam entre a proximidade e o distanciamento, a competição velada e o apoio mútuo. Como se, ao mesmo tempo em que se repelem e se agridem, Lila e Lenu também nutrissem um vínculo que não têm com mais ninguém, um vínculo inquebrável. A própria Lenu chega a dizer em um momento de raiva: "Me senti acorrentada a um pacto insuportável de amizade".


Insuportável porque Lenu, mesmo quando faz movimentos para se afastar do bairro e da amiga, mesmo quando busca sua própria trajetória, parece ser incapaz de sustentar sua vida sem constantemente compará-la à de Lila (tanto para se sentir superior quanto para se afundar na angústia de se perceber sempre insuficiente, sempre aquém, sempre atrasada nessa corrida entre as duas). Após ver Lila pela última vez, Lenu escreve: "Sua vida me esmagou, demorei dias para restituir contornos nítidos e espessura à minha". Não importa o que Lila faça, há algo nela que parece transcender os acontecimentos, algo que diz respeito à própria forma verdadeira como ela atravessa a vida — seja na mansão de Stefano ou no trabalho exaustivo em uma fábrica que chega a deixá-la com os dedos machucados. É essa verdade que Lenu parece estar em busca, mesmo quando não admite, ou quando, diante de Lila, adota uma postura esnobe, quase como aquela criança que não consegue o que quer e sente a necessidade de dizer "mas eu nem queria mesmo".


São sentimentos complexos e esses dias me chamou a atenção ver um comentário na internet apontando Lenu como "mesquinha". Não acho que seja. No fim das contas, tanto Lenu quanto Lila são jovens que cresceram em um bairro difícil, árido em afetos e referências, até mesmo agressivo, e ainda estão tentando entender como navegar pelo mundo (e, diga-se de passagem, um mundo bastante misógino, em que elas já são, de antemão, empurradas para certos papeis, como se desde a infância já houvesse um roteiro a seguir). De certa forma, as duas — cada uma à sua própria maneira — estão tentando escapar de uma vida pequena demais para elas, uma vida que as engole. Entre apaixonamentos e brigas, leituras e debates, entre o deslumbramento adolescente e a vida real dos apartamentos sujos que o escasso dinheiro é capaz de bancar, atravessando o bairro e indo além, Lila e Lenu se apoiam no vínculo complexo que têm entre si porque é o que elas conseguem encontrar de mais sólido. Um pequeno território de compreensão em meio a um deserto de isolamento.


Ainda não posso falar sobre os dois últimos livros da tetralogia, mas, dos dois primeiros, o que fica é a surpresa diante de como Ferrante consegue engolir o leitor em sua narrativa. Mergulhando em toda a contradição presente nas relações humanas, em toda a fragilidade e potência de suas personagens, nós não conseguimos sair dali até ler a última palavra da última linha. Uma leitura avassaladora.


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