Atualizado: 22 de ago. de 2021



Tenho falado muito nas redes sociais sobre como sinto falta da época dos blogs. Parecia uma forma de comunicação um pouco mais lenta, mas também mais profunda. A gente trocava uns com os outros, conhecia mais a fundo quem eram as pessoas que a gente acompanhava (até mesmo porque eram poucas, não era a chuva de criadores de conteúdo que as redes sociais proporcionam hoje em dia). Nada era tão veloz, nem tão superficial.


Não sei se é um saudosismo da minha parte ou se é só o reflexo de um certo burnout midiático (sobre o qual eu quero falar em breve, aliás), mas o fato é que: decidi alimentar esse blog com mais frequência. Agora aqui não vão entrar apenas poemas e crônicas, mas também resenhas sobre livros e filmes, papos sobre processos criativos, indicações, inspirações e outras coisas interessantes que me atravessarem! Começando por: esse post. Um postzinho mensal reunindo tudo que eu mais curti no mês (de livros a séries, passando por design, música, etc. etc.).



O que junho me trouxe



Foto: reprodução

Sweet Tooth


A história de Sweet Tooth começa quando um vírus mortal acaba com boa parte da civilização. No mesmo momento em que a pandemia explode, também começam a surgir os primeiros casos de crianças híbridas - parte humanas, parte animais - e ninguém sabe a relação entre um acontecimento e outro. Gus (Christian Convery) é uma dessas crianças híbridas e foi criado pelo pai em uma casa longe de tudo. Mas tudo muda quando o pai dele contrai o vírus e Gus precisa sair em uma aventura em busca da mãe desconhecida.


Sweet Tooth foi um daqueles casos em que eu torci a cara e pensei que seria uma série bobinha, mas foi muito mais incrível do que eu imaginava. Uma história leve, gostosa de assistir e que trouxe algumas reflexões boas sobre o medo e a nossa relação com o novo e o diferente.



Foto: reprodução

Midsommar


Depois de atravessar uma tragédia na família, Dani (Florence Pugh) decide acompanhar o namorado e os amigos dele a uma espécie de festival de verão na Suécia. Mas, em vez de férias tranquilas, o que eles encontram é uma comunidade com hábitos e rituais bizarros.


Essa é a sinopse de Midsommar, mas, se eu fosse definir o filme, provavelmente diria que é um filme sobre o luto. Ou, mais especificamente, sobre os rituais do luto, os rituais de morte e renascimento que a gente é forçado a encarar na vida. Esbarrando no terror psicológico, o filme tem algumas partes bastante impactantes, quase perturbadoras. É forte, mas também tem um tipo bem específico de beleza, aquele tipo que a gente só encontra nas catarses.




Torto arado


Não tenho lido muito esse ano, mas Torto arado foi certamente a minha leitura favorita por enquanto. Cheguei a escrever mais sobre ele em uma resenha aqui no blog recentemente.


O romance, escrito pelo Itamar Vieira Junior, acompanha a infância, a juventude e a vida adulta de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, que moram no sertão da Bahia e lidam com a escassez e a dificuldade de existir com autonomia como mulheres negras em um sistema desumano. Uma leitura forte e imensa, profundamente necessária.




Vela Ayla da Bluèsi


Quem me segue no Instagram já conheceu essa vela maravilhosa que me deixou a-p-a-i-x-o-n-a-d-a. Além de cheirosa (eu escolhi a de lavanda), foi lindo ver um corpo gordo sendo representado de forma tão sensível e real. Já apelidei a minha de Marlene e deixei ela na estante protegendo meus livros. Pra quem quiser conhecer a loja onde eu comprei, é só clicar aqui.



Fotos: instagram.com/schiaparelli


As peças da Schiaparelli


A coleção de alta-costura de inverno 2022 da Schiaparelli tem me deixado completamente obcecada. As peças conseguem ser estranhas e lindas na mesma medida e os vídeos da marca no Instagram são um absurdo de bonitos.




Common reaction, da Uh Huh Her


Não dá pra dizer que foi exatamente uma novidade, já que esse álbum é de 2008, mais de 10 anos atrás, mas em junho foi provavelmente o que eu mais escutei. É um álbum tão gostoso e melancólico ao mesmo tempo que parece ter combinado bem com os meus dias do último mês. Destaque especial pra Covered e Common reaction, que passaram dias no repeat.




Junho foi um mês estranho pra mim (e que mês não tem sido estranho vivendo no Brasil em 2021, não é mesmo?), mas também foi um mês de descobertas e inspirações bem interessantes. De vez em quando, tenho compartilhado algumas lá nos stories do Instagram. Mas no fim de julho preparo mais uma coleção de amores mensais por aqui também (e sejam bem-vindos a esse blog ressuscitado das cinzas).





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Atualizado: 22 de ago. de 2021





Sempre que eu penso em escrever sobre Torto arado, eu penso na palavra: árido. Penso em um livro seco, ardido, penso em um deserto. E, em muitos sentidos, essa aridez existe mesmo. Na história de Bibiana e Belonísia, as duas irmãs que acompanhamos ao longo da história, atravessando a infância e a juventude no sertão da Bahia, a aridez parece ser uma condição de existência. Essa existência quilombola, resistente, essa existência de planta que se recusa a morrer mesmo nas piores condições possíveis.


Mas também fico pensando que um livro que começa com um jorro de sangue não pode ser exatamente um livro árido. Existe um fluxo - de morte mas também de vida - que atravessa a leitura. Um fluxo de afetos jorrados aos trancos e barrancos, um fluxo de lutas e suores e falas. É um livro que me parece ser, no fim das contas, sobre a construção de uma resistência que é coletiva mas que também passa pelos afetos. Passa pela família, pelos filhos, pelo amor, pela relação complexa - e bonita - entre as irmãs Belonísia e Bibiana.


Dentro de um sistema desumano, Torto arado convida o leitor a acompanhar a infância, a juventude e a vida adulta das duas irmãs, os caminhos que percorrem, a forma como vão construindo a própria identidade e como cada uma percebe o lugar que está ocupando dentro desse coletivo. Um livro que dói feito a língua amputada que inaugura a narrativa.


E repensando esse começo após ter terminado a leitura, é até simbólico que a história toda se construa a partir desse primeiro fato: o corte da língua de uma das irmãs e a parceria que se estabelece entre as duas (uma falando pela outra, uma aprendendo a ler o mundo pra outra). É simbólico, porque depois que uma delas perde a língua o que se dá é um processo de reconstrução da fala. É preciso aprender novas formas de se comunicar e se colocar no mundo (com a ajuda da irmã a princípio, mas também sem ela).


Uma busca que não se restringe à irmã sem a fala, mas também inclui a outra, que segue tateando ao longo da juventude à procura da sua própria voz - que não seja à sombra da irmã, dos pais, do marido. Torto arado talvez seja, enfim, um livro sobre a busca - a busca de um grupo marginalizado por um espaço pra chamar de seu, por direitos básicos em um país ainda escravocrata, e também a busca por uma voz (tanto a própria quanto a coletiva).



“O sangue do passado corre feito um rio. Corre nos sonhos, primeiro. Depois chega galopando, como se andasse a cavalo.”

“Belonísia era a fúria que havia cruzado o tempo. Era filha da gente forte que atravessou um oceano, que foi separada de sua terra, que deixou para trás sonhos e forjou no desterro uma vida nova e iluminada.”

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Mantra: todos os caminhos me devolvem a mim mesma.⁣

Digo isso enquanto corto o cabelo. Enquanto pinto o cabelo. Enquanto transformo o rosto. Enquanto sinto as mutações do corpo. Enquanto troco a roupa. E olho pra todas as roupas sem me enxergar em nenhuma.⁣

Eu sou um plano em constante evolução. Disse pra ele vendo as fotos de 2016: “parece que morri e fui substituída”. Todos os anos eu morro e sou substituída. Mais de uma vez por ano. 538 versões atravessando um corpo só. É o que me faz ter menos medo do amanhã. Eu morri outras vezes e acordei no dia seguinte, radicalmente nova, radicalmente fresca, radicalmente corajosa. Sempre existe em mim o potencial de me tornar radicalmente outra. Mas todos os caminhos ainda me devolvem a mim mesma.⁣

Não tem erro, sabe? É difícil, mas também bonito - e não tem erro.


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