Atualizado: 18 de ago. de 2021




[Imagem encontrada na internet, infelizmente não sei a autoria.]


Dia 342


Não lembro quando isso tudo começou, mas parece que já faz alguns anos. Sei que eu estava disposta e energizada. Indo à academia. Alavancando projetos. Trabalhando traumas em terapia. Cantando Survivor no chuveiro e pensando naquele último amor que não deu certo. Uma legítima sobrevivente da vida, renovada & renascida das cinzas, eu estava encorpada, sólida, firme. Às vezes, raivosa. Certamente, raivosa. Mas me sentia como uma rocha - e me sentir como uma rocha tendo sido água a vida inteira foi um pequeno alívio.


Um rápido alívio.


Os dias tem sido de sol agora. Eu fico pensando que a natureza está feliz de poder tirar uma pausa dos seres humanos. Ela tá aliviada, tirando férias da gente, descansando as florestas, o ar e o mar sem ter que ficar lidando com essas criaturas metidas que constantemente invadem o espaço dela. Respeito a situação e não saio de casa pra nada. Pelas minhas contas, aqui no Rio, o isolamento social começou oficialmente há 20 dias, mas eu não tenho muita certeza. As contas se embaralham e sempre acho engraçado perceber que, nas redes sociais, cada um posta que está em um dia diferente da quarentena.


São como tempos desencontrados. Cada um na sua própria contagem, no seu ritmo, vivendo esse momento com as suas próprias estratégias, ferramentas e pânicos particulares. Cada um tendo que lidar com o seu acervo de demônios pessoais, arranjando formas de impedir que eles destruam completamente os móveis da casa agora que estão ociosos e enclausurados.



Dia 458



Esse diário está completamente fragmentado. Faz semanas desde que eu escrevi pela primeira (e última?) vez. Depois, esqueci. Mas a fragmentação parece ser a nossa própria substância agora. Os dias são entrecortados, as coisas acontecem em dimensões diferentes, tudo espalhado, desconectado, uma ponta pra cada lado, acontecimentos dispersos e sem ordem.


Hoje o Átila postou no Twitter que a quarentena, seja prolongada ou intercalada, pode ir até 2022. Eu não sei o que pensar sobre isso. Por quanto tempo uma vida aguenta estar suspensa? Por quanto tempo a gente aguenta o stand-by?


Quando eu era criança, me disseram que deixar a televisão no stand-by (ainda existia isso, acho que não existe mais) consumia muita energia. Não valia a pena. Eu me perguntava, então, pra quê existia o tal do stand-by se desligar era mais prático. Desligar não é mais prático agora. Nós queremos estar ligados, em movimento. Às vezes parece que estar parado é mais cansativo do que estar me mexendo.


Tenho visto muita gente usar (e eu mesma já usei) a frase "quando isso tudo acabar". Parece um consolo, um fôlego, aquela esperancinha distante correndo lá longe que a gente mal enxerga mas gosta de lembrar que tá lá. Quando isso tudo acabar....... Mas talvez, até 2022, a gente tenha que aprender a ir vivendo, conforme as circunstâncias, em diferentes ritmos, dentro das mais diferentes possibilidades, de forma meio gaguejante, meio engasgada. Interrompendo caminhos, pisando no mar só com a ponta dos pés, não podendo dar um abraço mas dando um aperto de mão. E lavando as mãos depois.



Dia 527



Pensamentos aleatórios de um dia aparentemente comum em uma quarentena:

  • Por que a Lavínia Vlasak anda sumida da televisão? Eu acho ela tão bonita.

  • A arte hiper-realista me assusta um pouco. Habilidades incríveis, mas tem sempre um desconforto junto.

  • Mudei a hora do celular pra ter mais vidas no jogo que eu estou jogando e agora ele diz que são 7 da manhã de domingo, mas ainda são 7 da noite de sábado. É estranho pensar que eu poderia já estar no amanhã. É estranho pensar que, tendo ansiedade, uma parte de mim está mesmo sempre no amanhã.

  • O tempo continua escorrido, gelatinoso, espalhado pela casa.

  • Sinto uma estranha falta de rezas e mantras e rituais e qualquer coisa de espiritualizado.

  • Comi bolo de cenoura com calda de chocolate pela segunda vez desde que a quarentena começou. Também já comemos 2 pudins. A comida parece ser o meu ritual e eu não sei se gosto disso.

  • Por que eu estou escrevendo esse diário? Quem vai ler? Só vale a pena escrever o que vai ser lido? Pra onde vão os escritos que ninguém quer ler?

  • As coisas banais da vida, as coisas pequenas e corriqueiras, as coisas minúsculas e facilmente atropeladas pelos grandes eventos: elas também gostam de ser ouvidas, né?



Dia 846



Digo pra minha terapeuta que quero arrastar a cara de alguém no asfalto. Ela responde: "espero que não seja a minha". Não. Não é a sua. Na verdade, é a do presidente. Mas outras pessoas também servem. Sinto raiva o tempo todo. Boa parte do tempo, a raiva foge pela minha boca como se fosse um cavalo desgovernado. No caminho, ele dilacera meus dentes, minha gengiva, minhas cordas vocais. Apesar dos pesares, tenho feito um exercício interessante de fazer as pazes com a minha agressividade.


Descobri que por muito tempo não me permiti ser agressiva. Faz parte de ser mulher essa exigência da amabilidade. A passividade adquirida. Só agora percebi o quanto eu vinha me tornando passiva-agressiva, justamente porque não me permitia a agressividade escancarada, mas tampouco conseguia mastigar e engolir o ódio.


Os dias passam em um ritmo regular e fluido. Às vezes acho que, tirando os momentos raivosos (que são muitos), estou sendo carregada por um rio. Tudo vai fluindo, escorrendo, sem muito controle ou planejamento ou perspectiva. Diariamente acordo e penso: é domingo? Mas quase nunca é domingo. Até que é. E depois não é mais. E tanto faz. Tenho tentado encontrar estrutura em coisas banais, pra dar alguma solidez a essa gelatina que se tornou o cotidiano, mas ainda não fui bem sucedida nas minhas tentativas.


Os planos ficam pairando no ar, como se estivéssemos todos em uma nave espacial, sem gravidade. A vida flutua. E a gente segue vagando, tentando se segurar onde for possível.




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a última pele


nunca chegou a carta que você

ia me mandar

eu sempre penso em perguntar

pro porteiro

mas aí lembro

acabou

o mar tá sempre longe agora

e de qualquer forma o porteiro não está

sabendo de cartas nem de entregas

as portas estão todas fechadas

o seu corpo foi o último que toquei

antes disso tudo

desabar sobre os nossos planos

e é doido pensar que o meu plano

antes disso tudo

era justamente esquecer de ter tocado

o seu corpo

era justamente buscar outros corpos

para tocar

eu estava com as mãos afiadas alertas abertas

eu estava acesa e bem disposta

antes disso tudo

desabar sobre a minha pressa

e entre todas as mortes e todos os riscos

entre os contágios as curvas as contaminações

e os sintomas e os testes e as máscaras

no meio do silêncio oleoso das horas

a minha maior preocupação ainda é pensar

que se eu morrer agora vai ter sido sua

a última pele

que eu pude tocar




sem governo


eu quero chorar

todas as minhas pedras

estourar os olhos

acordar no corpo de um esquimó

esquecido do tempo do mundo

desovar os mortos que carrego entre

os órgãos

espremer aquela dor mofada de 1998

até não sobrar resquício de inflamação

eu quero chorar até escorrer

um rio correndo solto pelas ruas da cidade

vazia

um rio fragilizando as estruturas já

debilitadas

abandonadas

corroídas pelas águas desgovernadas

eu quero chorar sem governo

invadir o palácio do planalto

gritar uma dor gangrenada

sobre a ausência dos homens que pouco

entendem de gritos ou gangrenas

ou de choros

e depois sobre a cidade vazia eu quero pensar

que o fim do choro pode abrir

uma entrada nova

entre as ruínas

uma passagem daqui

até um amanhã mais límpido




a própria festa


o espaço entre a minha mão e a sua é do tamanho de alguns dias talvez meses alguns meses eu estou sempre no amanhã e no amanhã tem cheiro de curiosidade o nosso encontro tem cheiro de chance uma chance em mil de estar enfim frente a frente pegar o real pelo corpo encharcar os dedos de presença porque não estar no agora é estar perdendo uma festa e daqui a alguns meses eu quero pensar que vamos ser nós a própria festa com mãos encostadas dispostas abertas com mãos abraçadas o que separa o nosso encontro do agora tem o tamanho da minha vontade de insistir no risco e apostar nas chances de um contato sem filtros






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[Sobre insistências sem futuro e repetições ruminadas]






Um tempo atrás, eu comprei em um site estrangeiro um combo daquelas canetas de aquarela (não sei o nome oficial delas, deve ter um nome melhor do que ~canetas de aquarela, mas o fato é que elas são canetas com um recipiente pra água e você usa pra fazer aquarelas). Recebi, amei, lindas, mas eu não conseguia abrir os recipientes de água de jeito nenhum. Tentei de tudo. Fiz muita força. Rodei. Puxei. Nada. Passei vários dias com elas no estojo, mas sem usar, simplesmente porque não conseguia abrir. Eis que um belo dia estou na faculdade conversando com um amigo meu e conto pra ele sobre as canetas. Tiro do estojo, mostro muito certa de que elas tavam com algum defeito intransponível e não tinha mais solução: “tá vendo como não abre?”. E ele (Fábio. Beijo, Fábio) me olha e pergunta: “será que você não tá girando pro lado errado?”


Eu tava. Dias e dias girando no sentido anti-horário, enquanto o grande truque era pura e simplesmente girar no sentido horário (sem força, sem mistério, sem nada). Girei e abriu. Foi simples assim. E essa simplicidade estranha que me pegou de surpresa acabou ficando na minha cabeça e se espalhando pra outras áreas da vida. Eu, que gosto tanto de insistir em plantas que já morreram com a esperança de que elas não tenham morrido totalmente, eu, que muitas vezes desperdiço o meu tempo com casos perdidos, que acho difícil largar o osso, que preciso dar 538 murros em ponta de faca até perceber que não tem jeito (altura em que a minha mão já está toda estropiada), eu mesma, rainha da teimosia, talvez esteja insistindo em girar pro lado errado coisas que podem ser facilmente resolvidas com uma mudança de sentido.


Desde esse dia (que já faz tempo), a frase do Fábio fica se repetindo na minha cabeça a cada situação que parece empacada, difícil, travada: “será que você não tá girando pro lado errado?” Porque às vezes a gente tá. Às vezes o problema não é a relação, é você estar tentando estabelecer ela com uma pessoa que não tá disposta. Às vezes a questão não é encontrar uma forma de fazer aquele caminho X dar certo, mas sim perceber que existem outros caminhos e talvez o X não seja o ideal pro seu momento. Em muitas áreas da vida, a gente insiste em girar pro lado errado, faz força, puxa, culpa a empresa que criou a caneta, decide que veio com defeito, tudo pra não ter que encarar o fato de — talvez, quem sabe, pode ser — a gente estar simplesmente insistindo em um sentido inviável.


Não é de hoje que eu falo sobre esse tema de abandonar casos perdidos e saber reconhecer quando aquilo não tá funcionando. Nesse outro texto aqui, eu falei sobre a necessidade de deixar as coisas morrerem — e seguir girando pro lado errado é também uma incapacidade de enxergar que nós estamos insistindo no erro. Como alguém que recentemente passou pelo que eu acredito ser o retorno de Saturno (porque, puta que pariu, 29 anos: por que me mataste?), insistir no erro foi um tema recorrente esse ano pra mim. Retomei questões que parecem ter marcado presença quase que durante a década inteira, ruminei e ruminei e ruminei dilemas que já estavam com gosto de guardado, mas que eu ainda não era capaz de digerir. Teimei e teimei e teimei em abrir a caneta — e a vida — pelo lado errado.


Metaforicamente falando, é, inclusive, simbólico eu insistir em não abrir a caneta, porque, quando eu conseguisse abrir, eu teria que efetivamente usá-la (não foi pra isso que eu comprei?) e usar a caneta de aquarela pra fazer aquarelas talvez me obrigasse a enxergar que eu não sou tão boa quanto gostaria com aquarelas. Talvez me obrigasse a encarar aquarelas horrorosas que em nada se parecem com as aquarelas que eu idealizei na minha cabeça. Talvez me obrigasse a encarar a minha falta de habilidade, a minha imperfeição, o meu perfeccionismo obsessivo, a minha necessidade de controle. Insistir em não abrir a caneta é também uma forma de autoboicote (e autoboicote é outro tema em que eu praticamente tenho um pós-doutorado).


Mas não tem nada mais gostoso e terapêutico do que um fim de ano pra gente tirar um tempo, encarar essas repetições e entender o que tá rolando por trás. Tudo o que volta certamente volta por um motivo. É a chance da gente refazer os caminhos, repensar estratégias, desarticular as nossas formas habituais de fazer as coisas e buscar formas novas. Buscar até mesmo dilemas novos, questões novas, quebrar a repetição e permitir que esse feeling de recomeço também nos empurre pras possibilidades ainda não exploradas, pra coragem de experimentar formatos inéditos, rumos inusitados — e, é claro, errar diferente, errar em outros testes, errar em diferentes experimentos, errar com mais liberdade (que alívio).


Afinal, não dá mesmo pra pintar aquarelas, boas ou ruins, com a caneta fechada (e não tem quem faça aquarelas fodas sem antes fazer várias bem péssimas). Insistir na caneta fechada é confortável, mas descobrir todo o potencial que ela tem estando aberta é que é verdadeiramente transformador. Que, em 2020, a gente abra mais as canetas — e saiba desapegar dos sentidos que não chegam a lugar nenhum.



[Esse texto foi originalmente publicado no meu perfil do Medium, em dezembro de 2019.]






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