Chidi Anagonye, eu te entendo. Vamos ser amigos. Surtar juntos. Paralisar juntos. Dividir um omeprazol. Porque eu também perco muito tempo pensando e eu descobri recentemente que pensar demais estraga as coisas. É doido porque, assim como o Chidi, que — pra quem não conhece — é um personagem de The good place que dá aula de filosofia, eu também trilhei um caminho acadêmico pautado em questionamentos que eu queria muito responder intelectualmente. Eu também busquei o sentido em livros e mais livros, eu também pensei que, pensando e pensando muito e pensando mais um pouco, eu pudesse encontrar a resposta pros meus incômodos interiores.


Mas não encontrei nada. Voltei de mãos vazias e um incômodo ainda mais fundo. Quando meu pai morreu, de repente me veio — acho que pela primeira vez na vida — uma sensação inescapável de esvaziamento de sentido. Pra que serviam aqueles questionamentos todos? Meu alívio eu encontrei foi trabalhando em uma livraria, conversando com muitos clientes que entravam lá procurando os mais variados tipos de livros (não só a literatura canônica que a academia reconhece, mas tantos outros, igualmente importantes). Eu estava na vida, trabalhando diariamente, trocando com pessoas, carregando livros, organizando estantes. Se antes pensar era a minha atividade favorita, era agora no movimento do corpo e no estar no mundo que eu encontrava algum alívio.


Porque, se eu pensasse demais, desmontava. E foi o que aconteceu em outros momentos da vida. Pensei demais, esvaziei o mundo, pensei tanto que paralisei porque queria analisar todos os aspectos de todos os caminhos, porque queria antecipar as possibilidades, porque esgotei as chances antes mesmo delas existirem. Overthink — um verbo maravilhoso do inglês que significa pensar além da conta — é a forma mais eficaz de esvaziar qualquer experiência. Isso porque, ao contrário do que Chidi e eu gostamos de acreditar, na vida nem tudo faz sentido — aliás, eu diria que muito pouco faz sentido. Assim como nem tudo tem resposta, nem tudo pode ser analisado racionalmente, nem tudo pode ser explicado racionalmente. Boa parte da vida é pele. É pele, suor, olho, ouvido, boca, mão.


Buscar sentido ou lógica ou entendimento naquilo que justamente é palco do mais profundo não-entendimento é um tiro no próprio pé. Nós que overthinkamos (porque, claro, eu tinha que abrasileirar esse termo, dá licença) pecamos por isso mesmo, porque estamos sempre querendo pensar aquilo que precisa ser vivido; querendo explicar o que precisa ser experimentado no contato mais direto, mais íntimo, mais impossível de ser colocado em palavras. Desde que eu voltei pra terapia no ano passado, tem uma frase que a minha terapeuta repetiu várias vezes e eu demorei a entender: “faz contato”. Sempre que eu tentava explicar alguma coisa e não sabia como porque parecia não ter lógica, ela dizia: “faz contato”. Fazer contato é colocar os meus pés na areia da praia e sentir que a vida não é em vão (mesmo que, racionalmente, eu não consiga explicar COMO um ser humano pode sentir que a vida vale a pena em um mundo tão violento e absurdo como esse). Fazer contato é pegar a vida com as mãos ao invés de tentar descrever a textura dela à distância.


O meio acadêmico e eu acabamos fazendo as pazes depois — e eu não quero, de forma alguma, soar como se estivesse diminuindo a importância do pensamento com esse texto (especialmente em um momento político como o nosso atual, em que o pensamento, o debate e os questionamentos são mais importantes que nunca). Só que, pra quem pensar era um vício, eu precisei me afastar e fazer esse detox até entender bem o que exatamente eu estava esperando encontrar — até mesmo porque o pensamento pode ser um mergulho imenso e uma ponte pra transformações efetivas quando bem direcionado, mas pode ser sinônimo de frustração quando a gente fica preso ali dentro. Se, assim como Chidi, eu esperava A Grande Resposta (e eu esperava), a expectativa frustrada serviu pra me mostrar um outro lado — o lado das pessoas que, ao contrário da gente, saíam vivendo sem pensar duas vezes.






E é por isso mesmo que eu acho tão bonita a relação entre Chidi e Eleanor. Ela é fazedora, quer descobrir vivendo, vai testar 438 experiências com gosto, mesmo que 437 deem errado. Sem parar pra analisar demais, se ela quer beijar, beija. Se ela quer fazer, faz. As ~Eleanors~ que eu encontrei na vida real eram algumas das pessoas mais bem resolvidas que eu já conheci, justamente porque não pensam demais — o que não quer dizer que sejam burras, pelo contrário, acho que elas entenderam algo que eu e Chidi ainda estamos nos debatendo pra entender. Pensar é necessário e importante. Mas o overthinking esvazia tudo, até o próprio pensamento. Quando a gente percebe, tá completamente paralisado sem saber tomar as mais simples decisões e acaba levando um ar condicionado na cabeça (entendedores de The good place entenderão).


O Chidi precisou morrer pra descobrir isso, aliás. Não existe resposta. Atravessar a porta às vezes é um ato de fé nas possibilidades. É uma insistência em pagar pra ver o que a gente pode encontrar do outro lado. Ainda que a minha vontade seja mesmo ficar aqui, parada diante da porta, pensando e pensando 589 vezes em todas as possibilidades antes de ousar atravessar. Mas a Eleanor lembra a gente que não existe vida estando parado. Pelo contrário, a vida tá no movimento. E é preciso atravessar.



[Esse texto foi originalmente postado no meu perfil do Medium, em novembro de 2019.]



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The Fall estreou anos atrás (em 2015, acho), mas eu só fui assistir recentemente, quando me deparei com ela na Netflix em um final de semana entediado. É uma série lenta, com longos diálogos e uma trama que se desenvolve aos poucos, mas que vale a pena, principalmente pelas questões que levanta sobre misoginia e violência contra a mulher. Na série, Paul Spector (interpretado pelo Jaime Dornan) é casado, com filhos, e atua como uma espécie de terapeuta, mas esconde das pessoas do seu convívio um lado mais sombrio: ele invade a casa de algumas mulheres, rouba sua lingerie e depois retorna para matá-las. Suas vítimas são sufocadas e depois colocadas em poses planejadas: seminuas, na cama, como se estivessem dormindo. Após alguns assassinatos, Paul começa a ser investigado pela detetive Stella Gibson (a maravilhosa Gillian Anderson), que faz questão de afirmar o quanto os seus crimes são pura misoginia.

De fato, todos os aspectos que Spector obsessivamente repete em todas as mortes denunciam a sua misoginia: a escolha de mulheres bem sucedidas, o roubo das lingeries, a asfixia, a necessidade de limpá-las e colocá-las seminuas sobre a cama, como se fossem bonecas. Não é difícil perceber que se trata de um serial killer cujo foco é exterminar mulheres e demonstrar sobre elas o seu poder de extermínio. Mas o que me parece interessante mesmo em The Fall é perceber como os outros personagens homens reagem diante de Spector e das personagens mulheres.

Em certo momento, Jim Burns — que trabalha com Stella no caso e se diz apaixonado por ela — entra em seu quarto de hotel e, no meio da conversa, insiste em beijá-la, mesmo quando ela já deixou claro que não quer (e ele só para quando ela finalmente bate nele). Mesmo percebendo depois a besteira que fez e pedindo desculpas, Burns não consegue se enxergar como alguém remotamente parecido com Spector. Pelo contrário, para ele é fácil estabelecer a linha divisória: Spector é um monstro, ele não. Ele só estava em um momento ruim, cometeu um erro, passou um pouco do limite. Para homens como Burns, os estupradores, agressores, assassinos são sempre monstros que não guardam semelhança alguma com o comportamento machista que eles próprios reproduzem diariamente.

E é por isso mesmo que, a cada novo caso de feminicídio, vemos mulheres pontuando essa necessária verdade: parem de chamar esses homens de monstros. Chamar os estupradores, agressores, assassinos de mulheres de monstros coloca entre eles e os homens que gostam de se considerar normais e inofensivos uma distância confortável. Enquanto, na verdade, eles, os monstros, não passam de homens comuns. São homens comuns que abusam de filhas e netas, são homens comuns, casados e com filhos, que agridem mulheres, são maridos que estupram esposas, são namorados aparentemente românticos e gentis que matam as namoradas. São homens como Jim Burns que, em um momento ruim, se excede e não entende o tamanho da violência que está cometendo ao desrespeitar a recusa de Stella.

Porque o ato violento de não respeitar o não de uma mulher que não quer um beijo é fruto da mesma árvore que o ato violento de não respeitar o corpo de uma mulher no transporte público, não respeitar o espaço dela, a sua fala, as suas escolhas, os seus direitos. E, em uma sociedade fundada sobre o machismo, é esperado que homens reproduzam essas violências — das mais sutis às mais perversas — tendo ou não consciência disso, mesmo quando preferem se enxergar como homens diferentes e inofensivos, que nunca, jamais, em hipótese alguma se igualariam a um monstro como Paul Spector. Para de fato encarar uma mudança, é preciso, antes de mais nada, que os homens entendam que agressores, estupradores e assassinos foram homens comuns que levaram ao extremo a violência contra a mulher presente o tempo todo — em maior ou menor grau — no nosso dia a dia.

Afinal, talvez você não tenha assassinado uma mulher, mas talvez tenha relevado quando aquele seu amigo foi claramente machista e, ao invés de sinalizar e tomar uma atitude, você escolheu fingir que não viu. Talvez você não tenha estuprado ninguém, mas pode ser que tenha insistido de maneira invasiva mesmo depois que ela já tinha deixado claro que não queria nada. É possível que você nunca tenha agredido uma mulher, mas tenha manipulado a sua ex e destroçado a saúde mental dela. Os tentáculos da violência contra a mulher são inúmeros e podem se manifestar de várias formas diferentes. Mas não são monstros que cometem essas violências, são homens. Homens comuns, aparentemente inofensivos, mas homens criados em uma sociedade que os ensinou a dominar mulheres, possuir mulheres, controlar mulheres.

E, se a ideia é impedir homens como Spector e Burns de executarem as suas violências, então é preciso que eles estejam dispostos a encarar o monstro no espelho e a desaprender tudo que aprenderam sobre o que significa ser homem.



[Esse texto foi originalmente publicado no meu perfil do Medium, em fevereiro de 2019.]



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Esses dias, conversando com uma amiga sobre uma pessoa que há tempos tinha saído da minha vida e recentemente voltou, me ouvi dizendo: “Eu não quero fechar ela na caixinha de quem ela costumava ser”. É verdade. Alguns anos depois, se eu me sinto outra pessoa, por que os outros também não teriam feito as suas próprias transformações? E, por mais questões enraizadas que eu ainda carregue, se tem uma coisa na qual eu acredito 100%, essa coisa se chama: transformação. A gente se transforma diariamente. E poder se transformar diariamente, saber que os caminhos estão abertos e nada está definido, selado, fechado sempre foi um grande alívio pra mim. Então por que não deixar esse caminho aberto pros outros também?


Lembro que, tempos atrás, uma das notícias que mais me chocaram pela violência foi a notícia de um garoto que, depois de roubar uma bicicleta, foi pego e teve a frase “Eu sou ladrão e vacilão” tatuada na própria testa. Para além de tantas questões sociais envolvidas, a violência maior do gesto, pra mim, foi justamente terem sentenciado esse garoto a continuar sendo aquilo que, naquele momento, julgaram que ele fosse. Com uma autodefinição eternamente presa à própria testa, de que forma ele poderia tentar se tornar qualquer outra coisa? Que saída se pega quando se foi enjaulado dentro de uma sentença como essa? E mais: com que direito uma pessoa sentencia a outra dessa forma?

Conversando com essa minha amiga sobre transformações e aberturas, lembrei dessa notícia. Pensei em quantas vezes a gente não faz isso na vida. Tatua na testa de alguém o que foi feito ou dito, o que a gente acredita que essa pessoa é — sem dar qualquer chance dela se tornar outra, dela abrir caminho para uma nova versão dela mesma. Ou, também, quantas vezes não tatuamos na nossa própria testa um rótulo que ganhamos dos outros ou de nós mesmos e nos fechamos confortavelmente naquela caixinha da definição pronta e imutável? Ainda que seja a forma como os outros frequentemente me veem, ainda que seja a forma como eu mesma aprendi a me enxergar: quem garante que isso diz qualquer coisa definitiva sobre mim? Por que me segurar a essa tatuagem na testa ao invés de me permitir experimentar as diferentes possibilidades de mim mesma? Por que tatuar a testa dos outros e não permitir que eles nos mostrem também outros lados que a gente ainda não conhecia — ou até mesmo lados que eles próprios ainda não conhecem e estão descobrindo agora?


Irônica e contraditoriamente (porque, é claro, onde tem ser humano, tem contradição), em outro assunto na mesma conversa, eu me peguei dizendo pra ela que queria poder receber um spoiler da vida sobre o meu futuro com as pessoas. Queria que elas já viessem com etiquetas na testa, escrito: “vai ser amor”, “vai ser uns beijos”, “vai ser amigo” — e pronto, seria simples, desde o começo a gente já se prepararia exatamente praquilo que vai receber. Depois eu mesma ri do absurdo que eu tinha dito e com o qual nem eu mesma concordo. Esse meu lado controlador e ansioso realmente adoraria poder prever tudo, se antecipar aos acontecimentos, tatuar a testa de todas as situações e todas as pessoas, só pra ter certeza de que não vai ser pego desprevenido. Mas, felizmente ou infelizmente: a vida não funciona desse jeito.


O tempo é justamente o requisito necessário pra que as coisas se desenrolem, tomem os seus próprios caminhos, nos surpreendam ou nos decepcionem. O lugar que as pessoas vão ocupar nas nossas vidas, assim como os diferentes lados que elas podem mostrar, é algo que só o tempo constrói, só o tempo responde. E, se no começo desse texto, eu disse que adorava o fato de nada ser fixo, aqui eu digo que odeio: tudo é possível, tudo é fluido, nada é definitivo. Você pode achar que é X e ser Y. Você esperava que a pessoa fosse A, mas ela foi B. De vez em quando, é incrível, é lindo, é surpreendente. Mas, às vezes, é frustrante também. É instável. E, principalmente, é assustador. Não adianta tatuar a testa da vida, ela passa um paninho e volta com a testa limpa e lisa — incapturável.


Nessas horas, é claro que tem lógica a gente querer rotular a deus e o mundo. É claro que tem lógica tatuar a testa daquela pessoa que te magoou, porque — muitas vezes — é a única forma que a gente encontra de não ser magoado de novo. O mecanismo de preservação tem lógica, mas não tem muito sentido. Se tudo é fluidez e mudança, a nossa tentativa de estabelecer garantias e certezas, de construir defesas, de delimitar relações e proximidades não adianta muita coisa. Pior: às vezes eu tenho a impressão de que basta a gente construir um muro pra vida dar uma risadinha, dizer um “tá se achando esperta, querida?” e dar a volta pra pegar a gente do outro lado. Tentar se prevenir diante dos acontecimentos, tentar se proteger diante de qualquer chance de ser afetado: pra quê?

Eu não sei. Eu: metade desespero, metade entrega. Metade obsessão por controle, metade vontade de ser surpreendida. Achando lindo que a vida seja assim, tão fluida, tão aberta, tão imprevisível, mas segurando uma máquina de tatuagem na mão direita e esperando uma brecha pra pegar a testa dela e enfiar uma definição que tranquilize a minha ansiedade. O cabo de guerra faz parte também. Na pior das hipóteses, ainda que a ansiedade ganhe algumas brigas, a vida sempre volta nua e crua pra me lembrar que definir qualquer coisa sobre mim mesma, os outros ou o mundo não é uma opção.



[Esse texto foi originalmente publicado no meu perfil do Medium, em fevereiro de 2019.]



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