Atualizado: 27 de fev. de 2020





Esses dias, conversando com uma amiga, me peguei dizendo que eu ando com uma enorme preguiça de quem não diz logo o que quer. Aos 27, já não tenho mais tempo pra perder com quem não está na mesma página que eu.


Inclusive, eu olho pra pessoa que eu era aos 22 anos, enrolada por meses com gente incapaz de se decidir sobre o que queria de mim, e mal me reconheço. Acho que o amor próprio tá aí também. Quando a gente consegue se amar, a aprovação do outro passa a valer bem menos — e o nosso tempo passa a valer bem mais. Quer? Quer. Não quer? Tranquilo. Quer, mas não sabe o que fazer com isso? Então vai se decidir enquanto eu sigo a minha vida porque já não me é suficiente ser cozinhada em banho-maria. Não pode nem deve ser suficiente. No ano passado, eu me envolvi com uma pessoa que me ganhou (entre outras coisas) pela coragem. A gente conversava há poucos dias quando, no meio de uma conversa, ela simplesmente virou pra mim e disse que me achava interessante, se sentia atraída por mim e acreditava que isso podia chegar a algum lugar. Ela não falou isso de uma forma calculista como uma tentativa de me seduzir e me fazer cair na conversa dela. Foi real. Foi aberto. Foi honesto, claro, objetivo. Profundamente corajoso. Eu nunca tinha conhecido alguém tão corajoso e aquela coragem me ganhou na mesma hora.


Por ironia da vida, eu conheci essa pessoa logo depois de um envolvimento com alguém que me frustrou exatamente pela covardia. Nessa história, tinha sido eu a corajosa, a que chega e diz claramente o que quer. Com muito esforço. Querendo morrer. Me sentindo nua. Morrendo de medo. Mas indo, apesar de. O que eu descobri com isso é que a clareza e a coragem assustam muita gente. Quem fala abertamente sobre o que quer desestabiliza quem ainda não conseguiu olhar o próprio desejo nos olhos. Em um mundo de joguinhos amorosos, indiretas, sinais obscuros e saídas pela tangente, chegar e dizer “eu quero você” pode ser um tanto assustador, tanto pra quem diz quanto pra quem ouve.


Talvez fosse legal pensar em como isso pode refletir a nossa dificuldade de encarar o nosso próprio desejo. Em como isso diz muito sobre uma sociedade que só permite desejos confessados em voz baixinha, quase entre dentes, meio de lado, sem olhar ninguém no olho. Talvez fosse legal pensar em como, num mundo de Tinders e outros cardápios humanos, a gente se assusta com alguém que parece decidido a querer a gente, alguém que não sai pela tangente, não dá sinais contraditórios enquanto mantém a sua lista de contatinhos ativa e na espreita. Talvez fosse interessante pensar nos motivos pelos quais o “eu quero você” assusta tanto, mas não é sobre isso que eu queria escrever.


A questão é que, depois desses dois relacionamentos transformadores, comecei a perceber melhor o que existe por trás dessa coragem. Fui me tornando mais corajosa também. E criei uma enorme preguiça de gente que não encara. Não existe nada mais atraente pra mim, hoje em dia, do que uma pessoa que me diz o que quer. De forma aberta, clara, objetiva, honesta. Disposta a abraçar o risco. Profundamente corajosa. É como eu mesma tenho tentado ser com os outros também. Sem jogos, sem meias verdades, sem dizer A querendo dizer B. É mais saudável assim, é mais justo com todos os envolvidos. É honesto com o nosso próprio desejo.


De certa forma, me parece que essa disposição em correr o risco e encarar a resposta do outro é a maior demonstração de amor próprio que a gente pode bancar. Depois de atravessar um processo de autoaceitação, não tem por que precisar da aprovação do outro, não tem por que surtar só porque o outro não gosta da gente. Tudo bem se ele não gostar. A gente parte pra outra e continua. A gente parte porque o nosso tempo, sim, vale muito pra ser desperdiçado em lugares meia boca. Lembro daquela frase que dizem ser da Frida: “onde não puderes amar, não te demores”. Também lembro da Nina Simone: “Você tem que aprender a se levantar da mesa quando o amor não está mais sendo servido”. E da Anitta: “Se quiser jogar, vem. Mas tem que arriscar, vem. Vai ser sim ou não”. A Anitta, a Nina e a Frida não têm paciência pra “talvez”. Nem eu.


Depois que a gente atravessa um processo de efetivamente entender o quanto a gente tem valor, não dá mais pra aceitar migalha disfarçada de banquete. Não dá mais pra aceitar ficar em banho-maria. Não dá mais pra colocar o nosso tempo nas mãos de gente que não consegue encarar o próprio desejo sem sair correndo. Afinal, exige coragem assumir o que a gente quer (não só pros outros, mas pra gente mesmo). Exige coragem e, se é pra arriscar, que a gente arrisque com quem vai valorizar a nossa coragem — e não se assustar com ela. Que a gente se arrisque com gente disposta a responder a nossa entrega com entrega também. E, se a entrega não for possível, que pelo menos respondam com a mesma honestidade, a mesma clareza, o mesmo cuidado. Vai ser sim ou não, mas, se for não, a gente levanta da mesa com a consciência tranquila de quem não teve medo de querer o que quis. Ou melhor dizendo: de quem teve medo, mas foi mesmo assim, apesar de.



[Esse texto foi originalmente publicado no meu perfil do Medium, em 2017.]

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Atualizado: 27 de fev. de 2020




Marquei no relógio. Vou passar 5 minutos chorando por ele. Só isso. Depois paro, seco o rosto, vou seguir em frente. Tenho feito isso agora. Dá certo. Ajuda, também, eu saber que não é por ele que eu estou chorando. Ele é só um cara. Eu choro pelo amor que vem e vai embora, eu choro pelo amor que morreu há pouco tempo, eu choro pelo amor que talvez nasça, eu choro pelo amor que ainda não nasceu mas eu já sei que vai morrer, eu choro porque tenho um medo terrível e uma grande vontade e porque não aprendi a estar tão vulnerável quanto o amor quer que eu esteja. Eu choro também porque ainda não posso chorar por amor. Ele é só um cara. Eu gostaria que ele fosse o amor. Mas ele é só um cara.


Ele é só um cara entre outros caras. Passa uma semana e esqueci. Outro cara. Passa uma semana. Não sei se ele fica. Eu quase não conheço ele, mas gostaria que ele ficasse. Sinto essa pontada de uma perda que poderia ser minha, mas ainda não chegou a ser (como se eu visse alguém perdendo a perna e sentisse, por empatia, a dor na minha própria perna, que segue intacta). Eu sinto essa perda de um futuro hipotético, e é ela que me dói. 10 minutos. Vou chorar aqui, rapidinho, vai passar. É claro que não é por ele que eu estou chorando, eu mal conheço ele, não faria sentido nenhum. Eu choro porque poderia ter sido. Mas não foi, não é, eu acho que não vai ser. Poderia ter sido, quem sabe. Algo me diz que teria sido bonito.


Mas ele é só um cara. Passa uma semana e esqueci. Outro cara. Não sei se dá certo. Ele está em Y, eu estou em Z, ainda que ele beije a minha boca e eu esqueça. Desapegado. Dessincronizados. Não sei se dá certo. Sinto uma grande angústia por não compreendê-lo e não prevê-lo e não decifrá-lo. Sinto uma grande angústia e começo a pensar no fim, não sei se quero que termine, mas também não quero que continue. 15 minutos. Vou chorar um pouco e estou livre.


Chega um momento em que me pego querendo logo atear fogo a essa aleatoriedade que é estar vivo entre seres vivos. E conhecer alguém e se depositar em alguém e se frustrar com alguém e se recompor… para conhecer outro alguém — e lá vamos nós de novo, mais uma vez, e outra vez, um cansaço, meu deus, que cansaço, esse ciclo não termina nunca, parece que faz anos que estou presa nessa roda gigante, começo a ficar enjoada, eu quero descer, mas ela não para. Estou tão cansada que vou chorar um pouquinho, marquei, 20 minutos. Ele é só um cara, eu sei, mas não é por nenhum ele que estou chorando. De repente, fecho os olhos e enxergo um amontoado de caras, todos esses rostos incompreensíveis que deixei passar — por escolha ou por falta dela. Todos esses rostos que amei um pouquinho ou desejei violentamente, todos esses rostos que, por algum tempo, me fizeram pensar que era aquele rosto que eu gostaria de ver para sempre. Ou não. Ou ver só por uma noite inteira, bem perto do meu, respirando no meu ouvido (também é bom, desejar é uma forma de amar, de querer por perto). Fecho os olhos e sou olhada por todos esses rostos incompreensíveis que tampouco me compreenderam ou me alcançaram ou que eu fui incapaz de amar — e agora já são 30 minutos, 50 minutos, uma hora inteira de um choro antigo que parece ter se desprendido de algum lugar, como acontece uma vez a cada alguns anos.


Mas, de repente, esse amontoado de caras também me diz que é assim mesmo. Faz parte. Ou será que você não lembra daquela vez que estava apaixonada e depois percebeu que vocês não teriam dado certo mesmo, ele era de direita e odiava feminismo? Será que não lembra daquele romance do qual você saiu mais atropelada que criança em aniversário de Guanabara, mas, meses depois, foi perceber o quanto aquela história tinha te transformado? Faz parte, eles dizem. Nem tudo é feito pra durar. Ou pra dar certo. Às vezes, é isso, é só isso. É o que tem pra agora. Em algum outro momento, talvez vocês se reencontrem. Talvez, não. Talvez os erros de agora façam algum sentido amanhã. Talvez o desencontro leve a um encontro novo amanhã. A um reencontro depois de amanhã. Quem pode prever?


Nós, não. O que se pode prever a gente conta na ausência de dedos. Marquei no relógio: 60 minutos, meu limite ultrapassado pra compensar nos próximos caras. Nada de chorinhos catárticos por 1 mês. Por agora, me afasto do rosto vermelho, dos soluços de criança ressentida. Vou retomando o fôlego, reabrindo um riso calmo, me permitindo saltar pra entrega de quem deixa nas mãos da vida e confia que ela (mais do que eu) vai saber escolher quem deixar pra trás. A entrega de quem sabe que a roda gigante não para mesmo, então só o que se pode fazer é aproveitar a vista. Abro o Tinder. Uma cerveja qualquer dia, pode ser? Claro, que dia? It’s a match. Você e um desconhecido podem, quem sabe, mudar a vida um do outro.



[Texto originalmente publicado no meu perfil do Medium em janeiro de 2017.]

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Atualizado: 28 de fev. de 2020







Finalmente, entrei de férias! Depois de um último período caótico na faculdade, que — somado à seleção pro mestrado — por pouco não me manda direto pro hospício. Enquanto fazia os trabalhos finais da graduação ou me dedicava à monografia, eu — irritada, cansada, desesperada — só pensava em tudo que eu estaria fazendo se não tivesse que fazer aquilo que eu estava efetivamente fazendo. Eu podia estar voltando a pintar, usando a aquarela nova que comprei recentemente. Podia colocar em prática aquele projeto de fotografia. Podia colocar em prática aquele projeto dos vídeos de poesia. Podia escrever um romance, um conto, um poema. Enfim, era esse mundo de possibilidades que dançava na minha cabeça, me frustrando e simultaneamente me dando alguma motivação pra terminar tudo o quanto antes.


E terminei. Terminei faz alguns dias e faz alguns dias que estou: olhando para a tela do computador. Tentei escrever poemas — e falhei miseravelmente. Planejei contos que não se concretizaram. Não pintei, não fotografei, não produzi, o grande mundo de possibilidades que dançava na minha cabeça, agora, à minha frente, fica praticamente estático, mexendo os bracinhos aqui e ali, como se fosse um idoso de 90 anos tentando imitar minimamente a coreografia da macarena conforme as artrites e artroses permitirem. Estou com todo o tempo livre do mundo. Então por que parece que nada está se encaixando nele?


Foi aí que eu tomei um pouco de distância e percebi que isso, na verdade, ocorre com frequência. E não só comigo. Assim como eu, conheço um bocado de gente (em geral, de 20 e poucos anos) que quer tanto e tantas coisas diferentes que acaba achando um desafio colocar projetos em prática. Somos verdadeiros polvos contemporâneos: somos atores, músicos, performers. Somos artistas, poetas, cineastas. Estamos aqui e ali ao mesmo tempo, múltiplos e borbulhantes, cheios de projetos, cheios de ideias, cheios de vontades, mas com pouquíssimo foco. Com uma dificuldade tremenda de se comprometer com uma ideia só, de sentar em um único lugar e se concentrar em uma única atividade por algum tempo.


De repente, começo a pensar que nós — a chamada geração Y — talvez sejamos, de fato, a geração acostumada a estar em vários lugares ao mesmo tempo. Constantemente conectados, conversando pelo WhatsApp com quem está do outro lado da cidade, do país, do mundo, vagando pelas diferentes fotografias do Instagram, passeando pelo feed do Twitter e do Facebook. Pra piorar (ou melhorar? não sei bem), foi-se o tempo em que as profissões — decididas lá no vestibular aos 17 anos — eram atividades fechadas que dificultavam a vida de quem quisesse fazer uma transição entre áreas. Agora, me parece muito mais fácil encontrar um engenheiro que começou a trabalhar com fotografia. Um geógrafo tradutor. Um arquiteto que se embrenhou pelos caminhos das artes visuais. Estamos mais mutáveis, mais mutantes, mais abertos para a infinidade de possibilidades e mais conscientes de que uma possibilidade não necessariamente exclui a outra — pelo contrário, é possível combiná-las e chegar a novas possibilidades, ainda não imaginadas, ainda cheias de potencial.


Isso está longe de ser ruim, mas tem os seus efeitos colaterais. Talvez a geração Y seja mesmo a geração das possibilidades, e talvez seja possível dizer que, exatamente por isso, nós somos tão ruins em fazer escolhas. Porque fazer uma escolha é se comprometer. É se comprometer com uma opção entre outras tantas e ter que abrir mão das outras tantas, em detrimento da que está sendo escolhida. Nós, que estamos acostumados a estar em vários lugares ao mesmo tempo, não aprendemos a estar em um lugar só. Inteiramente aqui, inteiramente agora, inteiramente só. Inteiramente dentro dessa única ideia que possui a minha total atenção durante esse período de tempo. Para um polvo contemporâneo, não existe maior dificuldade do que permitir que todos os tentáculos voltem a sua atenção para um mesmo ponto.


Outro dia, falando com uma amiga, lembro de ter me definido usando a expressão: eu sou muito espalhada. Sou mesmo. Imensa dificuldade de me concentrar, de estar por completo em um espaço. Isso está nítido no meu vício terrível em redes sociais. Na minha incapacidade de largar o celular, mesmo quando estou em uma festa, em um restaurante, em uma mesa de bar com amigos, a minha cruel incapacidade de estar somente ali. É preciso estar também no Instagram, no WhatsApp, no feed das outras redes, vendo o que está acontecendo por aí. É preciso estar aqui, mas também aí, também ali, também lá, também vagando pelas possibilidades que me salvam da claustrofobia existencial. A claustrofobia que a vida adulta exige: se comprometer com alguma coisa. Abrir mão das outras. Focar.


Talvez por isso lidar com o tempo livre seja, enfim, o meu maior desafio (e, arrisco dizer, de muitos da geração Y). Nós fazemos malabarismo, estamos sempre em trânsito, sempre indo para algum lugar, sempre no meio do caminho. E é mais fácil assim. Os tentáculos reagem bem à agitação, atuam por conta própria, seguem catando começos, dividindo atenções, sem se dar conta do tanto que se tem nas mãos. Mas joga um tempo verdadeiramente livre no nosso colo pra você ver só o que acontece. Nesse branco vazio, nesse potencial assustador de tão imenso, a verdade é que a gente não sabe mesmo o que fazer com tantos tentáculos. Com tantos malabares. Com tantas vontades, projetos, ideias, paixões.Decidi começar desligando o meu celular. Sentando quietinha no meu espaço. Segurando a vontade de fazer 38 coisas ao mesmo tempo. Canto White stripes mentalmente, I just don’t know what to do with myself. Não sei o que fazer com esses tentáculos que não aprenderam a ficar parados. Mas respiro profundamente, recebo o santo de um maestro no meu corpo e começo a inédita tentativa de orquestrá-los. A inédita tentativa de fazer com que, juntos e sincronizados, eles descubram uma possibilidade até então inviável, uma possibilidade que só funciona quando todos estão na mesma página.

[Texto publicado originalmente em janeiro de 2017 no meu perfil do Medium.]



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