3 poemas para a quarentena





a última pele


nunca chegou a carta que você

ia me mandar

eu sempre penso em perguntar

pro porteiro

mas aí lembro

acabou

o mar tá sempre longe agora

e de qualquer forma o porteiro não está

sabendo de cartas nem de entregas

as portas estão todas fechadas

o seu corpo foi o último que toquei

antes disso tudo

desabar sobre os nossos planos

e é doido pensar que o meu plano

antes disso tudo

era justamente esquecer de ter tocado

o seu corpo

era justamente buscar outros corpos

para tocar

eu estava com as mãos afiadas alertas abertas

eu estava acesa e bem disposta

antes disso tudo

desabar sobre a minha pressa

e entre todas as mortes e todos os riscos

entre os contágios as curvas as contaminações

e os sintomas e os testes e as máscaras

no meio do silêncio oleoso das horas

a minha maior preocupação ainda é pensar

que se eu morrer agora vai ter sido sua

a última pele

que eu pude tocar




sem governo


eu quero chorar

todas as minhas pedras

estourar os olhos

acordar no corpo de um esquimó

esquecido do tempo do mundo

desovar os mortos que carrego entre

os órgãos

espremer aquela dor mofada de 1998

até não sobrar resquício de inflamação

eu quero chorar até escorrer

um rio correndo solto pelas ruas da cidade

vazia

um rio fragilizando as estruturas já

debilitadas

abandonadas

corroídas pelas águas desgovernadas

eu quero chorar sem governo

invadir o palácio do planalto

gritar uma dor gangrenada

sobre a ausência dos homens que pouco

entendem de gritos ou gangrenas

ou de choros

e depois sobre a cidade vazia eu quero pensar

que o fim do choro pode abrir

uma entrada nova

entre as ruínas

uma passagem daqui

até um amanhã mais límpido




a própria festa


o espaço entre a minha mão e a sua é do tamanho de alguns dias talvez meses alguns meses eu estou sempre no amanhã e no amanhã tem cheiro de curiosidade o nosso encontro tem cheiro de chance uma chance em mil de estar enfim frente a frente pegar o real pelo corpo encharcar os dedos de presença porque não estar no agora é estar perdendo uma festa e daqui a alguns meses eu quero pensar que vamos ser nós a própria festa com mãos encostadas dispostas abertas com mãos abraçadas o que separa o nosso encontro do agora tem o tamanho da minha vontade de insistir no risco e apostar nas chances de um contato sem filtros






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