Diário da quarentena - parte 2

Atualizado: 22 de ago. de 2021





Dia 560:


Como chama esse estado das coisas que já saíram de um ponto mas ainda não chegaram a outro? Como chama esse limbo entre o antes e o depois? Esse agora meio turvo de quem tá atravessando uma ponte sem muita certeza sobre onde vai parar? É aqui que eu tô. Andei falando sobre isso no Twitter e encontrei um tanto de gente sentindo o mesmo. Parece que esses meses de isolamento, ironicamente, mesmo tão parados, mexeram em alguma coisa lá no fundo. Aquela areia deitada no fundo do copo agora se misturou com a água.

Fico com vontade de ir pra rua quando terminar a pandemia e renovar 100% o meu guarda-roupa porque nada do que eu tenho me representa mais - embora eu ainda não saiba muito bem o que me representa. Olho pras fotos antigas e não me encontro, mas ainda não tenho conseguido tirar fotos novas. Me sinto esquisita em todas. Lembro daquela frase do Manoel de Barros: “do lugar onde estou já fui embora”. Eu também.


Dia 829:

Travei a coluna pela terceira vez em duas semanas. Pareço uma idosa me movimentando. Do sofá para a cama, da cama para o sofá. Vez ou outra, trabalhar na mesa de jantar (a cadeira é horrível). Não tenho organizado a casa. Sobre a escrivaninha do meu quarto, uma pilha de roupas misturadas. Matei três plantas. Logo eu, matei três plantas. Mas numa delas, antes de morrer, encontrei um papa-mosca e senti orgulho de mim porque olhei pra ele, tive medo e ainda assim deixei ele ir. Deixei ele escalar a parede do meu quarto e se esconder atrás da estante de livros. Mesmo com a perspectiva assustadora dele subir em cima de mim enquanto eu estivesse dormindo um dia, deixei ele ir. Porque, no fim das contas, estamos os dois aqui, tentando insistir em existir, não é? Que direito tenho eu?