Entre Hannah Gadsby e eu - sobre o enjoo pós-Nanette

Atualizado: 25 de mar. de 2020





Faz alguns dias que eu estou engasgada. Engasguei quando dei play em Nanette — stand-up comedy da australiana Hannah Gadsby, que agora está disponível na Netflix. Engasguei quando dei play em Nanette e ainda não consegui desengasgar. Fico voltando pra certas cenas, revejo, repenso, reengasgo, rio de novo, choro de novo, sinto de novo essa vontade de abraçar a Hannah. Depois dos dias de engasgo, veio a imensa vontade de escrever sobre, embora eu não fizesse a menor ideia do que escrever. Como dizer? Como falar sobre esse violento soco no estômago que eu levei — e precisei levar?


Foram muitas as reflexões sensacionais sobre a história da arte (e o papel das mulheres e dos homens dentro dela), sobre sexualidade, comédia e a necessidade de construir uma narrativa própria sendo alguém que está à margem do discurso dominante. Hannah não só é mulher, gorda e lésbica, mas também não se encaixa nenhum pouco nos estereótipos de gênero. Sendo uma mulher “incorreta”, como ela mesma se denomina em certo momento, e sendo homossexual em uma cidade pequena onde — nos anos 90 — o maior debate era se a homossexualidade deveria ou não ser legalizada (!!!), Hannah fala sobre como gostaria de ter ouvido uma história como a dela durante a sua adolescência. Teria feito com que ela se sentisse menos sozinha. Afinal, o mundo ainda é, no fim das contas, escrito pelos homens brancos heterossexuais. É deles o discurso que predomina, são eles os personagens principais de grande parte das histórias. Daí a importância da gente começar a levantar a voz, começar a construir uma narrativa própria, uma reafirmação da nossa experiência no mundo (a referência que Hannah gostaria de ter tido durante a adolescência, por exemplo, fico pensando que alguns adolescentes estejam começando a ter agora — com bastante ênfase no começando, claro, porque estamos caminhando a passos mais lentos do que eu gostaria).


Mas, entre os muitos questionamentos impactantes de Nanette, o que mais continuou sendo repassado em looping na minha cabeça foi o momento em que Hannah fala sobre a violência que sofreu. He beat the shit out of me and nobody stopped him: revi essa cena e ouvi ela dizer essa frase muitas e muitas vezes e em nenhuma delas deixou de doer. Acolho a dor dela porque também sou mulher, acolho a dor dela porque sei que a lesbofobia mata todos os dias, mas de alguma forma também sei que essa dor me coloca em uma outra posição. Não sou como a Hannah. Eu, com as minhas maquiagens, os meus batons, os meus vestidos, meus brincos e anéis, eu não sou como a Hannah. Embora não me adeque ao padrão magro de beleza, sei que, em muitos outros aspectos, sou uma mulher socialmente aceitável. Sei que, se eu estivesse conversando com outra mulher em um ponto de ônibus (como aconteceu com ela), muito provavelmente a minha feminilidade convenceria qualquer namorado ciumento de que eu sou só uma mulher feminina e heterossexual — e não uma ameaça. A violência que me assombra não é a mesma que assombra a Hannah (embora as duas se encostem em muitos pontos).


Depois do looping de He beat the shit out of me and nobody stopped him, tentei voltar à minha vida e comecei a sentir um enjoo recorrente. Um enjoo quando vou passar o corretivo, o blush, o rímel e o batom de cada dia. Um enjoo quando pinto as unhas. Um enjoo quando coloco longos brincos nas minhas orelhas que foram furadas quando eu ainda era um bebê e precisava ser marcada como uma bebê do gênero feminino (com tudo que esse conceito é capaz de carregar). Sinto enjoo em pensar naquele ponto de ôni