Entre o investimento emocional e a zona de conforto

Atualizado: 25 de mar. de 2020





Faz quase um ano que não gosto de ninguém. Desde que tive um envolvimento intenso que me levou alguns meses para assimilar, não consegui mergulhar em mais ninguém. Umas ficadas aleatórias aqui e ali, uns possíveis começos que não passavam do primeiro mês, um ou outro flerte e olhe lá. Mas entrega, entrega de verdade: não. No início desse ano, percebi que estava bem com isso. Percebi que precisava aprender a ficar sozinha (seja lá o que isso quer dizer). Precisava reorganizar a minha vida, me estabelecer, investir nos meus próprios projetos. E foi o que eu fiz. Entre subidas e descidas, é o que tenho feito: investir em mim mesma. Cheguei a dizer pra uma amiga o quanto eu não estava com disponibilidade para o investimento emocional que um envolvimento amoroso requer.


Até que, recentemente, passeando pelos canais da net, esbarrei com: Titanic. Confesso que chorei. Confesso que deitei em posição fetal no sofá e cantei junto “my heart will go on”, desejando um Jack pra Rose que vive em mim. Quando o filme terminou (e, convenhamos, o final não é muito animador), eu continuei sentada pensando: “afinal, o que diabos eu tô querendo?” Resposta fácil: um amor. Resposta complexa: aprender a administrar meu investimento em mim mesma com o investimento que faço no outro. Porque, claro, eu não pude deixar de pensar que, se o Jack não existisse, talvez a Rose tivesse contemplado mais a paisagem. Aproveitado outras atrações do navio, refletido sobre a própria vida, tomado as rédeas da situação. Assim como eu, enquanto não me envolvo com ninguém, posso contemplar as paisagens, aproveitar as atrações do mundo, investir meu tempo e energia em várias atividades diferentes. Se eu estivesse com alguém agora, seria a mesma coisa? É claro que não. Meu tempo e energia ficariam compartimentados, não seriam 100% meus.


Essa dificuldade de conciliação é algo que me aflige há tempos, quando — em épocas de paixões antigas — eu me pegava pensando “meu deus do céu, eu tinha 358 coisas pra fazer agora de tarde, mas, ao invés disso, passei o tempo todo falando com fulano” (e dá pra substituir “falando com fulano” por “pensando em fulano”, “ouvindo músicas que me lembram fulano”, “antecipando meu encontro com fulano” que dá certo também). Eu pensava, inclusive, que essa era uma questão minha, até ouvir amigas relatando o mesmo. Uma delas chegou a dizer que “se sentia roubada de si mesma” quando se envolvia com alguém. Na hora, pensei: “isso é o amor”. Perceber que os seus dias não são mais só seus, que agora é preciso levar em conta essa outra pessoa, suas vontades e preferências e prioridades. Para se envolver com alguém, é necessário sair um pouco de si mesmo.


Mas quanto? — eu me pergunto. O quanto se pode (se deve) sair de si mesmo sem correr o risco de sair inteiramente de si? A quantidade de vezes que saí inteiramente de mim me diz que devo estar fazendo algo errado. Não sei se os homens passam por isso com tamanha frequência, mas alguma coisa me diz que não. Alguma coisa me diz que, para as mulheres, o apaixonamento é sempre algo que nos move a ponto de nos tirar do eixo — enquanto os homens sempre parecem ter outros lugares onde se segurar. O amor faz as mulheres tirarem os dois pés do chão, enquanto os homens parecem ter sempre um pé apoiado na terra; um olho no amor, o outro no mundo. Talvez seja porque, desde muito cedo, a gente aprende a ser princesa, esperar desmaiada o beijo do príncipe, cuidar de cozinhas e trocar fraldas de bonecas. Já os meninos brincam de aventureiros e desbravadores, ocupando os muitos espaços do mundo (enquanto nós nos acostumamos ao eixo quarto-cozinha). Enquanto aos homens é permitida a realização em diversas áreas, para as mulheres, a única forma de legitimação da própria identidade parece ser mesmo o amor.


Ampliar os nossos espaços de realização é, então, uma boa forma de ressignificar esse molde feminino que nos foi vendido desde sempre (e continua sendo, aliás, basta ver a quantidade de filmes produzidos em Hollywood com um roteiro em que uma mulher workaholic percebe que toda aquela realização não vale nada até ela encontrar o amor de sua vida). Mas ampliar esses espaços não é suficiente. Mais do que isso, é preciso aprender a conjugar os espaços — e encontrar um lugar em nós onde o amor possa viver sem destruir tudo ao redor, sem escravizar todas as outras áreas que estiverem no meio do caminho.


Imagino que alguém vá dizer que o arrebatamento faz parte. Que a paixão faz mesmo essas coisas, deixa a gente achando que nada mais importa. Pois eu diria que, nessas horas, especialmente para nós mulheres, é fundamental lembrar que: SIM, há outras áreas que importam. Sim, ainda existe aquele seu emprego incrível (ou a promessa dele), ainda existe a sua paixão pelos seus hobbies, a sensação gostosa de estar bem com você mesma, se cuidar, se levar a um passeio qualquer, ainda existem os amigos, a família, o seu cachorro ou gato, as viagens, o sexo, os risos, ainda existe uma vida imensa para além da realização amorosa — e você, felizmente, não se resume a isso. E, embora você não se resuma a isso, está tudo bem se você quiser experimentar essa realização, e aprender a conjugar ambos os investimentos (em você mesma e no outro) talvez seja um dos exercícios mais difíceis e mais fundamentais da vida.


Eu adoraria ter respostas sobre como fazer isso e finalizar esse texto com um ótimo tutorial. Mas a verdade é que: vendo Titanic, querendo um Jack e pensando, ao mesmo tempo, em como eu — nesse momento da vida — me sinto 0% disposta a investir em outra pessoa, eu concluí que não existe fórmula mágica. Ao me questionar, percebi que, na minha indisposição atual para investir em outra pessoa, há um tanto de amor próprio (já que eu estou mesmo em um momento promissor e não quero abrir mão da energia que tenho colocado nos meus próprios projetos), mas também há um tanto de autopreservação e — por que não dizer? — zona de conforto. Não é fácil estar sozinha, pelo contrário. Às vezes, a gente leva anos até aprender, e é realmente um aprendizado necessário. Por outro lado, há um quê de confortável em não ter que administrar uma relação, conciliar vontades diferentes, momentos diferentes, preferências diferentes.


Se estar sozinha é um grande desafio, estar acompanhada é outro. É preciso ajustar o equilíbrio entre não perder o outro na gente e não perder a gente no outro. É preciso não cair na zona de conforto que é estar com alguém por medo de estar sozinha e estar sozinha por medo de estar com alguém. E talvez assim, talvez nessa balança difícil de ser equilibrada, a gente encontre, enfim, uma forma de deixar o outro entrar sem ter que, para isso, desalojar a nós mesmas.






[Esse texto foi originalmente publicado no meu perfil do Medium, em abril de 2017.]


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