Orquestrando tentáculos (ou a geração que está em todos os lugares e em lugar nenhum ao mesmo tempo)

Atualizado: 28 de fev. de 2020







Finalmente, entrei de férias! Depois de um último período caótico na faculdade, que — somado à seleção pro mestrado — por pouco não me manda direto pro hospício. Enquanto fazia os trabalhos finais da graduação ou me dedicava à monografia, eu — irritada, cansada, desesperada — só pensava em tudo que eu estaria fazendo se não tivesse que fazer aquilo que eu estava efetivamente fazendo. Eu podia estar voltando a pintar, usando a aquarela nova que comprei recentemente. Podia colocar em prática aquele projeto de fotografia. Podia colocar em prática aquele projeto dos vídeos de poesia. Podia escrever um romance, um conto, um poema. Enfim, era esse mundo de possibilidades que dançava na minha cabeça, me frustrando e simultaneamente me dando alguma motivação pra terminar tudo o quanto antes.


E terminei. Terminei faz alguns dias e faz alguns dias que estou: olhando para a tela do computador. Tentei escrever poemas — e falhei miseravelmente. Planejei contos que não se concretizaram. Não pintei, não fotografei, não produzi, o grande mundo de possibilidades que dançava na minha cabeça, agora, à minha frente, fica praticamente estático, mexendo os bracinhos aqui e ali, como se fosse um idoso de 90 anos tentando imitar minimamente a coreografia da macarena conforme as artrites e artroses permitirem. Estou com todo o tempo livre do mundo. Então por que parece que nada está se encaixando nele?


Foi aí que eu tomei um pouco de distância e percebi que isso, na verdade, ocorre com frequência. E não só comigo. Assim como eu, conheço um bocado de gente (em geral, de 20 e poucos anos) que quer tanto e tantas coisas diferentes que acaba achando um desafio colocar projetos em prática. Somos verdadeiros polvos contemporâneos: somos atores, músicos, performers. Somos artistas, poetas, cineastas. Estamos aqui e ali ao mesmo tempo, múltiplos e borbulhantes, cheios de projetos, cheios de ideias, cheios de vontades, mas com pouquíssimo foco. Com uma dificuldade tremenda de se comprometer com uma ideia só, de sentar em um único lugar e se concentrar em uma única atividade por algum tempo.


De repente, começo a pensar que nós — a chamada geração Y — talvez sejamos, de fato, a geração acostumada a estar em vários lugares ao mesmo tempo. Constantemente conectados, conversando pelo WhatsApp com quem está do outro lado da cidade, do país, do mundo, vagando pelas diferentes fotografias do Instagram, passeando pelo feed do Twitter e do Facebook. Pra piorar (ou melhorar? não sei bem), foi-se o tempo em que as profissões — decididas lá no vestibular aos 17 anos — eram atividades fechadas que dificultavam a vida de quem quisesse fazer uma transição entre áreas. Agora, me parece muito mais fácil encontrar um engenheiro que começou a trabalhar com fotografia. Um geógrafo tradutor. Um arquiteto que se embrenhou pelos caminhos das artes visuais. Estamos mais mutáveis, mais mutantes, mais abertos para a infinidade de possibilidades e mais conscientes de que uma possibilidade não necessariamente exclui a outra — pelo contrário, é possível combiná-las e chegar a novas possibilidades, ainda não imaginadas, ainda cheias de potencial.


Isso está longe de ser ruim, mas tem os seus efeitos colaterais. Talvez a geração Y seja mesmo a geração das possibilidades, e talvez seja possível dizer que, exatamente por isso, nós somos tão ruins em fazer escolhas. Porque fazer uma escolha é se comprometer. É se comprometer com uma opção entre outras tantas e ter que abrir mão das outras tantas, em detrimento da que está sendo escolhida. Nós, que estamos acostumados a estar em vários lugares ao mesmo tempo, não aprendemos a estar em um lugar só. Inteiramente aqui, inteiramente agora, inteiramente só. Inteiramente dentro dessa única ideia que possui a minha total atenção durante esse período de tempo. Para um polvo contemporâneo, não existe maior dificuldade do que permitir que todos os tentáculos voltem a sua atenção para um mesmo ponto.


Outro dia, falando com uma amiga, lembro de ter me definido usando a expressão: eu sou muito espalhada. Sou mesmo. Imensa dificuldade de me concentrar, de estar por completo em um espaço. Isso está nítido no meu vício terrível em redes sociais. Na minha incapacidade de largar o celular, mesmo quando estou em uma festa, em um restaurante, em uma mesa de bar com amigos, a minha cruel incapacidade de estar somente ali. É preciso estar também no Instagram, no WhatsApp, no feed das outras redes, vendo o que está acontecendo por aí. É preciso estar aqui, mas também aí, também ali, também lá, também vagando pelas possibilidades que me salvam da claustrofobia existencial. A claustrofobia que a vida adulta exige: se comprometer com alguma coisa. Abrir mão das outras. Focar.


Talvez por isso lidar com o tempo livre seja, enfim, o meu maior desafio (e, arrisco dizer, de muitos da geração Y). Nós fazemos malabarismo, estamos sempre em trânsito, sempre indo para algum lugar, sempre no meio do caminho. E é mais fácil assim. Os tentáculos reagem bem à agitação, atuam por conta própria, seguem catando começos, dividindo atenções, sem se dar conta do tanto que se tem nas mãos. Mas joga um tempo verdadeiramente livre no nosso colo pra você ver só o que acontece. Nesse branco vazio, nesse potencial assustador de tão imenso, a verdade é que a gente não sabe mesmo o que fazer com tantos tentáculos. Com tantos malabares. Com tantas vontades, projetos, ideias, paixões.Decidi começar desligando o meu celular. Sentando quietinha no meu espaço. Segurando a vontade de fazer 38 coisas ao mesmo tempo. Canto White stripes mentalmente, I just don’t know what to do with myself. Não sei o que fazer com esses tentáculos que não aprenderam a ficar parados. Mas respiro profundamente, recebo o santo de um maestro no meu corpo e começo a inédita tentativa de orquestrá-los. A inédita tentativa de fazer com que, juntos e sincronizados, eles descubram uma possibilidade até então inviável, uma possibilidade que só funciona quando todos estão na mesma página.

[Texto publicado originalmente em janeiro de 2017 no meu perfil do Medium.]



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