Os inúmeros tentáculos da misoginia





The Fall estreou anos atrás (em 2015, acho), mas eu só fui assistir recentemente, quando me deparei com ela na Netflix em um final de semana entediado. É uma série lenta, com longos diálogos e uma trama que se desenvolve aos poucos, mas que vale a pena, principalmente pelas questões que levanta sobre misoginia e violência contra a mulher. Na série, Paul Spector (interpretado pelo Jaime Dornan) é casado, com filhos, e atua como uma espécie de terapeuta, mas esconde das pessoas do seu convívio um lado mais sombrio: ele invade a casa de algumas mulheres, rouba sua lingerie e depois retorna para matá-las. Suas vítimas são sufocadas e depois colocadas em poses planejadas: seminuas, na cama, como se estivessem dormindo. Após alguns assassinatos, Paul começa a ser investigado pela detetive Stella Gibson (a maravilhosa Gillian Anderson), que faz questão de afirmar o quanto os seus crimes são pura misoginia.

De fato, todos os aspectos que Spector obsessivamente repete em todas as mortes denunciam a sua misoginia: a escolha de mulheres bem sucedidas, o roubo das lingeries, a asfixia, a necessidade de limpá-las e colocá-las seminuas sobre a cama, como se fossem bonecas. Não é difícil perceber que se trata de um serial killer cujo foco é exterminar mulheres e demonstrar sobre elas o seu poder de extermínio. Mas o que me parece interessante mesmo em The Fall é perceber como os outros personagens homens reagem diante de Spector e das personagens mulheres.

Em certo momento, Jim Burns — que trabalha com Stella no caso e se diz apaixonado por ela — entra em seu quarto de hotel e, no meio da conversa, insiste em beijá-la, mesmo quando ela já deixou claro que não quer (e ele só para quando ela finalmente bate nele). Mesmo percebendo depois a besteira que fez e pedindo desculpas, Burns não consegue se enxergar como alguém remotamente parecido com Spector. Pelo contrário, para ele é fácil estabelecer a linha divisória: Spector é um monstro, ele não. Ele só estava em um momento ruim, cometeu um erro, passou um pouco do limite. Para homens como Burns, os estupradores, agressores, assassinos são sempre monstros que não guardam semelhança alguma com o comportamento machista que eles próprios reproduzem diariamente.

E é por isso mesmo que, a cada novo caso de feminicídio, vemos mulheres pontuando essa necessária verdade: parem de chamar esses homens de monstros. Chamar os estupradores, agressores, assassinos de mulheres de monstros coloca entre eles e os homens que gostam de se considerar normais e inofensivos uma distância confortável. Enquanto, na verdade, eles, os monstros, não passam de homens comuns. São homens comuns que abusam de filhas e netas, são homens comuns, casados e com filhos, que agridem mulheres, são maridos que estupram esposas, são namorados aparentemente românticos e gentis que matam as namoradas. São homens como Jim Burns que, em um momento ruim, se excede e não entende o tamanho da violência que está cometendo ao desrespeitar a recusa de Stella.

Porque o ato violento de não respeitar o não de uma mulher que não quer um beijo é fruto da mesma árvore que o ato violento de não respeitar o corpo de uma mulher no transporte público, não respeitar o espaço dela, a sua fala, as suas escolhas, os seus direitos. E, em uma sociedade fundada sobre o machismo, é esperado que homens reproduzam essas violências — das mais sutis às mais perversas — tendo ou não consciência disso, mesmo quando preferem se enxergar como homens diferentes e inofensivos, que nunca, jamais, em hipótese alguma se igualariam a um monstro como Paul Spector. Para de fato encarar uma mudança, é preciso, antes de mais nada, que os homens entendam que agressores, estupradores e assassinos foram homens comuns que levaram ao extremo a violência contra a mulher presente o tempo todo — em maior ou menor grau — no nosso dia a dia.

Afinal, talvez você não tenha assassinado uma mulher, mas talvez tenha relevado quando aquele seu amigo foi claramente machista e, ao invés de sinalizar e tomar uma atitude, você escolheu fingir que não viu. Talvez você não tenha estuprado ninguém, mas pode ser que tenha insistido de maneira invasiva mesmo depois que ela já tinha deixado claro que não queria nada. É possível que você nunca tenha agredido uma mulher, mas tenha manipulado a sua ex e destroçado a saúde mental dela. Os tentáculos da violência contra a mulher são inúmeros e podem se manifestar de várias formas diferentes. Mas não são monstros que cometem essas violências, são homens. Homens comuns, aparentemente inofensivos, mas homens criados em uma sociedade que os ensinou a dominar mulheres, possuir mulheres, controlar mulheres.

E, se a ideia é impedir homens como Spector e Burns de executarem as suas violências, então é preciso que eles estejam dispostos a encarar o monstro no espelho e a desaprender tudo que aprenderam sobre o que significa ser homem.



[Esse texto foi originalmente publicado no meu perfil do Medium, em fevereiro de 2019.]



4 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo