"Será que você não tá girando pro lado errado?"

[Sobre insistências sem futuro e repetições ruminadas]






Um tempo atrás, eu comprei em um site estrangeiro um combo daquelas canetas de aquarela (não sei o nome oficial delas, deve ter um nome melhor do que ~canetas de aquarela, mas o fato é que elas são canetas com um recipiente pra água e você usa pra fazer aquarelas). Recebi, amei, lindas, mas eu não conseguia abrir os recipientes de água de jeito nenhum. Tentei de tudo. Fiz muita força. Rodei. Puxei. Nada. Passei vários dias com elas no estojo, mas sem usar, simplesmente porque não conseguia abrir. Eis que um belo dia estou na faculdade conversando com um amigo meu e conto pra ele sobre as canetas. Tiro do estojo, mostro muito certa de que elas tavam com algum defeito intransponível e não tinha mais solução: “tá vendo como não abre?”. E ele (Fábio. Beijo, Fábio) me olha e pergunta: “será que você não tá girando pro lado errado?”


Eu tava. Dias e dias girando no sentido anti-horário, enquanto o grande truque era pura e simplesmente girar no sentido horário (sem força, sem mistério, sem nada). Girei e abriu. Foi simples assim. E essa simplicidade estranha que me pegou de surpresa acabou ficando na minha cabeça e se espalhando pra outras áreas da vida. Eu, que gosto tanto de insistir em plantas que já morreram com a esperança de que elas não tenham morrido totalmente, eu, que muitas vezes desperdiço o meu tempo com casos perdidos, que acho difícil largar o osso, que preciso dar 538 murros em ponta de faca até perceber que não tem jeito (altura em que a minha mão já está toda estropiada), eu mesma, rainha da teimosia, talvez esteja insistindo em girar pro lado errado coisas que podem ser facilmente resolvidas com uma mudança de sentido.


Desde esse dia (que já faz tempo), a frase do Fábio fica se repetindo na minha cabeça a cada situação que parece empacada, difícil, travada: “será que você não tá girando pro lado errado?” Porque às vezes a gente tá. Às vezes o problema não é a relação, é você estar tentando estabelecer ela com uma pessoa que não tá disposta. Às vezes a questão não é encontrar uma forma de fazer aquele caminho X dar certo, mas sim perceber que existem outros caminhos e talvez o X não seja o ideal pro seu momento. Em muitas áreas da vida, a gente insiste em girar pro lado errado, faz força, puxa, culpa a empresa que criou a caneta, decide que veio com defeito, tudo pra não ter que encarar o fato de — talvez, quem sabe, pode ser — a gente estar simplesmente insistindo em um sentido inviável.


Não é de hoje que eu falo sobre esse tema de abandonar casos perdidos e saber reconhecer quando aquilo não tá funcionando. Nesse outro texto aqui, eu falei sobre a necessidade de deixar as coisas morrerem — e seguir girando pro lado errado é também uma incapacidade de enxergar que nós estamos insistindo no erro. Como alguém que recentemente passou pelo que eu acredito ser o retorno de Saturno (porque, puta que pariu, 29 anos: por que me mataste?), insistir no erro foi um tema recorrente esse ano pra mim. Retomei questões que parecem ter marcado presença quase que durante a década inteira, ruminei e ruminei e ruminei dilemas que já estavam com gosto de guardado, mas que eu ainda não era capaz de digerir. Teimei e teimei e teimei em abrir a caneta — e a vida — pelo lado errado.


Metaforicamente falando, é, inclusive, simbólico eu insistir em não abrir a caneta, porque, quando eu conseguisse abrir, eu teria que efetivamente usá-la (não foi pra isso que eu comprei?) e usar a caneta de aquarela pra fazer aquarelas talvez me obrigasse a enxergar que eu não sou tão boa quanto gostaria com aquarelas. Talvez me obrigasse a encarar aquarelas horrorosas que em nada se parecem com as aquarelas que eu idealizei na minha cabeça. Talvez me obrigasse a encarar a minha falta de habilidade, a minha imperfeição, o meu perfeccionismo obsessivo, a minha necessidade de controle. Insistir em não abrir a caneta é também uma forma de autoboicote (e autoboicote é outro tema em que eu praticamente tenho um pós-doutorado).


Mas não tem nada mais gostoso e terapêutico do que um fim de ano pra gente tirar um tempo, encarar essas repetições e entender o que tá rolando por trás. Tudo o que volta certamente volta por um motivo. É a chance da gente refazer os caminhos, repensar estratégias, desarticular as nossas formas habituais de fazer as coisas e buscar formas novas. Buscar até mesmo dilemas novos, questões novas, quebrar a repetição e permitir que esse feeling de recomeço também nos empurre pras possibilidades ainda não exploradas, pra coragem de experimentar formatos inéditos, rumos inusitados — e, é claro, errar diferente, errar em outros testes, errar em diferentes experimentos, errar com mais liberdade (que alívio).


Afinal, não dá mesmo pra pintar aquarelas, boas ou ruins, com a caneta fechada (e não tem quem faça aquarelas fodas sem antes fazer várias bem péssimas). Insistir na caneta fechada é confortável, mas descobrir todo o potencial que ela tem estando aberta é que é verdadeiramente transformador. Que, em 2020, a gente abra mais as canetas — e saiba desapegar dos sentidos que não chegam a lugar nenhum.



[Esse texto foi originalmente publicado no meu perfil do Medium, em dezembro de 2019.]






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