Sobre O corpo dela e outras farras (Carmen Maria Machado)




Vela da Bluèsi


Assim que comecei O corpo dela e outras farras, livro de contos da Carmen Maria Machado, já fui pega no susto por uma das epígrafes do livro: "deus devia ter feito as garotas letais quanto transformou homens em monstros" (Elisabeth Hewer). O primeiro conto, “O ponto do marido”, parece pegar a deixa da citação para abordar uma violência masculina que não se manifesta da forma como nós estamos acostumados a ver. Nele, conhecemos uma mulher que vive com uma fita no pescoço que, segundo ela, não pode ser tirada em hipótese alguma. Todos respeitam a existência dessa fita sem questionar, exceto seu marido, que constantemente demonstra a vontade de arrancá-la, apenas por curiosidade.


Nos contos seguintes, o corpo feminino segue ocupando o papel de protagonista. Atravessando e sendo atravessado por afetos, violências, metamorfoses, cirurgias, mutilações, desejos... Em "Oito bocados", uma mulher faz uma cirurgia para emagrecer e passa a receber a visita de uma criatura estranha em sua casa. Já em "Mulheres de verdade têm corpos", presenciamos uma epidemia inusitada: mulheres por todo o mundo estão começando a perder a materialidade e desaparecer, tornando-se corpos transparentes.


A violência a que estão sujeitos os corpos femininos aparece com força nos dois contos, seja na preocupação com o emagrecimento, na vontade de arrancar pedaços de si mesma para caber no molde da mulher ideal, seja na imagem de mulheres cada vez mais invisíveis, tão invisíveis que se tornam fantasmáticas, perdendo aos poucos a própria humanidade.


Em vários dos contos, também chama a atenção a incidência de mulheres que se relacionam com outras mulheres. Não apenas afetivamente. Temos casais de mulheres, mas também irmãs, filhas, amigas... São mulheres que tendo o próprio corpo atravessado por inúmeras demandas e agressões eventualmente vão buscar refúgio em outras mulheres - ou, em alguns casos, também reproduzem a violência sofrida em suas relações com outras.


O corpo dela e outras farras foi a leitura em que eu mergulhei depois de terminar As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez, e é impossível não traçar um paralelo entre as duas (embora Mariana não se debruce completamente sobre a violência sofrida por corpos femininos). Carmen, ao contrário, parece fazer desse o eixo principal de seu livro, se utilizando de elementos fantásticos e eventuais acontecimentos insólitos para tratar de uma dor que é concreta e real. Afinal, ainda hoje o corpo da mulher é tratado como uma farra, embora poucas vezes nós sejamos convidadas para participar da festa.





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