Sobre retomar caminhos e abandonar casos perdidos

Atualizado: 25 de mar. de 2020





Faz algum tempo que não escrevo. No meio do caos político de 2018, parece que todas as outras coisas mudaram de lugar ou perderam a dimensão de antes. Agora, ainda desnorteada, mas já tentando respirar fundo e retomar algum caminho, volto pro papel. Volto com a expectativa de reconstruir a minha relação com a escrita. E volto porque, hoje particularmente, senti a necessidade de declarar pra mim mesma: eu preciso aprender a deixar as coisas morrerem.





Deixar morrer é um gesto difícil. Exige desistência — e às vezes eu tenho a impressão de que nós fomos treinados para continuar tentando ad eternum. Deixar morrer exige que a gente abra a mão e permita que aquilo vá embora sem sentir a necessidade de sair correndo atrás (ou até mesmo sentindo a necessidade, mas respirando fundo e resistindo). Faz parte. A vida é mesmo esse equilíbrio entre movimentos de segurar e soltar, de morte e recomeço. Eu sou muito boa na arte de enfiar as garras nas coisas, mas nos últimos tempos tenho percebido quão grande é a minha dificuldade de abrir mão e desistir.


Percebi isso na planta que está claramente morta e eu fico tentando ressuscitar. Troquei de vaso, mudei a terra, coloquei perto da luz, tirei de perto da luz, reguei, reguei de novo, continuei regando, ainda que ela não me desse nenhum retorno de que os meus esforços estavam valendo a pena. E de fato não estavam. Não estão. Mas eu insisto. Sei lá por quê.

Percebi isso na amizade que já está requentada depois de uma briga séria e eu sei (por mais que não goste de saber) que já não tem vida. É um dente morto, raiz fraturada por dentro, esperando alguém parar pra arrancar. Ainda que eu tente obsessivamente ressuscitar. Ainda que eu faça e refaça caminhos, teste diálogos, exercite a empatia, arranje justificativas, trabalhe a mágoa. Ainda que, ao fim disso tudo, eu olhe pra essa relação e perceba que ela já não me traz nada além de esforço contínuo, exaustão e desgaste. Mas eu insisto. Sei lá por quê.


Percebi isso quando outro dia me peguei falando sobre a minha dificuldade de abandonar as discussões. Mesmo quando a pessoa já claramente não ouve, mesmo quando os dois estão querendo falar sem querer escutar o outro, mesmo quando o caso está perdido e eu sei que estou só ruminando o que já foi dito. Insisto. Até o final. Até a outra pessoa largar o osso. Sei lá por quê.


Culturalmente, a gente aprende desde muito cedo a nutrir essa aversão pela morte. É preciso salvar, seja o que for, seja a que custo. É preciso fazer manobras de reanimação em quem está por um fio, é preciso manter a vida funcionando mesmo que seja com a ajuda de aparelhos, é preciso salvar mesmo que sobre pouco ou quase nada da essência do que está sendo salvo. Deixar ir é uma fraqueza, deixar ir é coisa de quem não quer o suficiente. Mas nessas horas eu lembro da frase da Clarice: “Saber desistir. Abandonar ou não abandonar — esta é muitas vezes a questão para um jogador. A arte de abandonar não é ensinada a ninguém. E está lon­ge de ser rara a situação angustiosa em que devo de­cidir se há algum sentido em prosseguir jogando”.





Estou muito acostumada a prosseguir jogando sem parar pra tomar essa decisão. Justamente por ser uma angústia. Como se decide o ponto de abandono? Como se decide o ponto em que os esforços já não fazem mais sentido? De que forma posso jogar fora a minha planta murcha sem a certeza absoluta de que já não há como reanimá-la? De onde tiro a coragem para extrair da minha vida de vez a amizade que julgo estar morta sem sentir esse impulso de mantê-la funcionando com a ajuda de aparelhos só mais um pouquinho? Quando fui rever Grey’s Anatomy esses dias, percebi que eu muito provavelmente seria aquela médica que precisa ser retirada à força de perto dos pacientes mortos, porque continua tentando obsessivamente fazer uma massagem cardíaca e recuperar a vida que, segundo os aparelhos, já foi embora há tempos. Sem chance de retorno.


Esse é o questionamento que também tem me atravessado nas faxinas que tenho feito. Jogar fora objetos antigos também é uma forma de declarar o seu fim, ainda que simbólico. É o fim do que significaram, é o fim da função que tinham. Fazendo essa grande reorganização da casa, tenho me deparado frequentemente com esses objetos que ficam no limbo e me colocam diante do dilema. Abandonar ou manter? Mantenho porque amo ou mantenho porque me acostumei a eles e mexer nesse comodismo seria trabalhoso demais? Mantenho porque amo ou mantenho porque não consigo romper o vínculo e deixar ir embora?


Desistir não é fácil. Deixar morrer talvez exija o reconhecimento de que fizemos o possível — e nem sempre temos essa convicção; pelo contrário, a maior parte dos seres humanos sente que deveria ter feito mais ou ter feito, pelo menos, de maneira diferente. Mas reconhecer que fizemos o possível é também reconhecer que fazemos o que podemos fazer, com aquilo que temos no momento. Nem sempre é o melhor, mas é o que podíamos oferecer, com aquele nível de consciência, com o conhecimento que tínhamos ali. Talvez a minha planta não tivesse morrido se eu entendesse mais de plantas e suas necessidades. Mas eu fiz tudo que podia, dentro do que eu podia fazer.


Deixar morrer é, acima de tudo, uma forma de respeitar a vida e seus ciclos. Os clichês têm a sua razão quando dizem que é preciso abandonar certas coisas que já não funcionam para que as coisas novas encontrem espaço para nascer. Sem isso, não há ciclo, não há renovação, não há recomeço. Dói um pouco, mas deixar morrer é também a única forma possível de abrir a porta para os novos nascimentos.





[Esse texto foi originalmente publicado no meu perfil do Medium em novembro de 2018.]


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