Sobre Torto Arado (Itamar Vieira Junior)

Atualizado: 22 de ago. de 2021





Sempre que eu penso em escrever sobre Torto arado, eu penso na palavra: árido. Penso em um livro seco, ardido, penso em um deserto. E, em muitos sentidos, essa aridez existe mesmo. Na história de Bibiana e Belonísia, as duas irmãs que acompanhamos ao longo da história, atravessando a infância e a juventude no sertão da Bahia, a aridez parece ser uma condição de existência. Essa existência quilombola, resistente, essa existência de planta que se recusa a morrer mesmo nas piores condições possíveis.


Mas também fico pensando que um livro que começa com um jorro de sangue não pode ser exatamente um livro árido. Existe um fluxo - de morte mas também de vida - que atravessa a leitura. Um fluxo de afetos jorrados aos trancos e barrancos, um fluxo de lutas e suores e falas. É um livro que me parece ser, no fim das contas, sobre a construção de uma resistência que é coletiva mas que também passa pelos afetos. Passa pela família, pelos filhos, pelo amor, pela relação complexa - e bonita - entre as irmãs Belonísia e Bibiana.


Dentro de um sistema desumano, Torto arado convida o leitor a acompanhar a infância, a juventude e a vida adulta das duas irmãs, os caminhos que percorrem, a forma como vão construindo a própria identidade e como cada uma percebe o lugar que está ocupando dentro desse coletivo. Um livro que dói feito a língua amputada que inaugura a narrativa.


E repensando esse começo após ter terminado a leitura, é até simbólico que a história toda se construa a partir desse primeiro fato: o corte da língua de uma das irmãs e a parceria que se estabelece entre as duas (uma falando pela outra, uma aprendendo a ler o mundo pra outra). É simbólico, porque depois que uma delas perde a língua o que se dá é um processo de reconstrução da fala. É preciso aprender novas formas de se comunicar e se colocar no mundo (com a ajuda da irmã a princípio, mas também sem ela).


Uma busca que não se restringe à irmã sem a fala, mas também inclui a outra, que segue tateando ao longo da juventude à procura da sua própria voz - que não seja à sombra da irmã, dos pais, do marido. Torto arado talvez seja, enfim, um livro sobre a busca - a busca de um grupo marginalizado por um espaço pra chamar de seu, por direitos básicos em um país ainda escravocrata, e também a busca por uma voz (tanto a própria quanto a coletiva).



“O sangue do passado corre feito um rio. Corre nos sonhos, primeiro. Depois chega galopando,