Titane: um horror marcado pelo híbrido





Titane já começa com uma agonia: após um acidente de carro, Alexia, ainda criança, precisa implantar uma placa de titânio na cabeça. Anos mais tarde, vemos que ela se tornou não apenas uma dançarina erótica que trabalha em um showroom de automóveis, mas também uma assassina procurada pela polícia, que mata fria e gratuitamente diversas pessoas que atravessam o seu caminho. É em um momento de fuga que Alexia, enfim, assume uma identidade masculina. Com os seios escondidos e o cabelo curto, ela é confundida com o filho desaparecido de um capitão dos bombeiros e vai morar com ele, passando a atender por Adrien.

Mas, abraçando ainda mais o absurdo, Alexia não é apenas uma fugitiva andrógina que assume o lugar do filho desaparecido de um homem desconhecido: ela também está grávida de um dos carros do showroom — e tenta desesperadamente ocultar essa gravidez, mesmo que pra isso precise mutilar o próprio corpo, enfaixando a barriga e os seios até que a pele fique cortada e machucada. Flertando com o body horror, o filme traz diversas cenas de corpos sendo machucados, mas também de corpos sendo levados ao próprio limite. É o caso de Alexia e de Vincent, seu pai postiço, que constantemente injeta esteroides como uma forma de atrasar os efeitos da idade.




De certa forma, parece que o corpo – com a sua precariedade, sua vulnerabilidade – é tratado como um grande inimigo dos personagens. E, para Alexia, essa relação não deixa de ser atravessada pelo gênero. É impossível não notar como se contrapõem as imagens de uma Alexia hiperssexualizada que vive da exposição do próprio corpo no começo do filme e a Alexia andrógina com o corpo mutilado, lutando contra a própria gravidez, que aparece na segunda metade da narrativa.


Mas, transitando entre os dois polos, a personagem se mostra pouco interessada em fincar os pés em um lugar só. Pelo contrário, o lugar dela é o do limbo, do híbrido, da ciborgue que tem uma placa de titânio na cabeça e um bebê metade máquina dentro da barriga. Entre o masculino e o feminino, entre o humano e a máquina.

A luta contra o próprio corpo parece ser também o que une Alexia ao seu pai postiço, Vincent – e, não à toa, apenas depois de mostrar a ele o seu verdadeiro corpo é que ela consegue parir a criatura que está gestando. O parto traz, inclusive, uma das imagens mais marcantes do filme, em que Alexia, nua, com o corpo dilacerado e a cabeça raspada, deita na cama do pai postiço enquanto um líquido preto vaza dos rasgos de sua barriga. Com diversas cenas marcadas pelo neon e pela fotografia maravilhosa, Titane ainda arrepia pelas atuações (destaque óbvio para a Agathe Rousselle) e, apesar de ser um horror atravessado pelas questões do contemporâneo, o filme não deixa de surpreender também pelo humor macabro.





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