Tudo é fluido (e isso é foda)





Esses dias, conversando com uma amiga sobre uma pessoa que há tempos tinha saído da minha vida e recentemente voltou, me ouvi dizendo: “Eu não quero fechar ela na caixinha de quem ela costumava ser”. É verdade. Alguns anos depois, se eu me sinto outra pessoa, por que os outros também não teriam feito as suas próprias transformações? E, por mais questões enraizadas que eu ainda carregue, se tem uma coisa na qual eu acredito 100%, essa coisa se chama: transformação. A gente se transforma diariamente. E poder se transformar diariamente, saber que os caminhos estão abertos e nada está definido, selado, fechado sempre foi um grande alívio pra mim. Então por que não deixar esse caminho aberto pros outros também?


Lembro que, tempos atrás, uma das notícias que mais me chocaram pela violência foi a notícia de um garoto que, depois de roubar uma bicicleta, foi pego e teve a frase “Eu sou ladrão e vacilão” tatuada na própria testa. Para além de tantas questões sociais envolvidas, a violência maior do gesto, pra mim, foi justamente terem sentenciado esse garoto a continuar sendo aquilo que, naquele momento, julgaram que ele fosse. Com uma autodefinição eternamente presa à própria testa, de que forma ele poderia tentar se tornar qualquer outra coisa? Que saída se pega quando se foi enjaulado dentro de uma sentença como essa? E mais: com que direito uma pessoa sentencia a outra dessa forma?

Conversando com essa minha amiga sobre transformações e aberturas, lembrei dessa notícia. Pensei em quantas vezes a gente não faz isso na vida. Tatua na testa de alguém o que foi feito ou dito, o que a gente acredita que essa pessoa é — sem dar qualquer chance dela se tornar outra, dela abrir caminho para uma nova versão dela mesma. Ou, também, quantas vezes não tatuamos na nossa própria testa um rótulo que ganhamos dos outros ou de nós mesmos e nos fechamos confortavelmente naquela caixinha da definição pronta e imutável? Ainda que seja a forma como os outros frequentemente me veem, ainda que seja a forma como eu mesma aprendi a me enxergar: quem garante que isso diz qualquer coisa definitiva sobre mim? Por que me segurar a essa tatuagem na testa ao invés de me permitir experimentar as diferentes possibilidades de mim mesma? Por que tatuar a testa dos outros e não permitir que eles nos mostrem também outros lados que a gente ainda não conhecia — ou até mesmo lados que eles próprios ainda não conhecem e estão descobrindo agora?


Irônica e contraditoriamente (porque, é claro, onde tem ser humano, tem contradição), em outro assunto na mesma conversa, eu me peguei dizendo pra ela que queria poder receber um spoiler da vida sobre o meu futuro com as pessoas. Queria que elas já viessem com etiquetas na testa, escrito: “vai ser amor”, “vai ser uns beijos”, “vai ser amigo” — e pronto, seria simples, desde o começo a gente já se prepararia exatamente praquilo que vai receber. Depois eu mesma ri do absurdo que eu tinha dito e com o qual nem eu mesma concordo. Esse meu lado controlador e ansioso realmente adoraria poder prever tudo, se antecipar aos acontecimentos, tatuar a testa de todas as situações e todas as pessoas, só pra ter certeza de que não vai ser pego desprevenido. Mas, felizmente ou infelizmente: a vida não funciona desse jeito.


O tempo é justamente o requisito necessário pra que as coisas se desenrolem, tomem os seus próprios caminhos, nos surpreendam ou nos decepcionem. O lugar que as pessoas vão ocupar nas nossas vidas, assim como os diferentes lados que elas podem mostrar, é algo que só o tempo constrói, só o tempo responde. E, se no começo desse texto, eu disse que adorava o fato de nada ser fixo, aqui eu digo que odeio: tudo é possível, tudo é fluido, nada é definitivo. Você pode achar que é X e ser Y. Você esperava que a pessoa fosse A, mas ela foi B. De vez em quando, é incrível, é lindo, é surpreendente. Mas, às vezes, é frustrante também. É instável. E, principalmente, é assustador. Não adianta tatuar a testa da vida, ela passa um paninho e volta com a testa limpa e lisa — incapturável.


Nessas horas, é claro que tem lógica a gente querer rotular a deus e o mundo. É claro que tem lógica tatuar a testa daquela pessoa que te magoou, porque — muitas vezes — é a única forma que a gente encontra de não ser magoado de novo. O mecanismo de preservação tem lógica, mas não tem muito sentido. Se tudo é fluidez e mudança, a nossa tentativa de estabelecer garantias e certezas, de construir defesas, de delimitar relações e proximidades não adianta muita coisa. Pior: às vezes eu tenho a impressão de que basta a gente construir um muro pra vida dar uma risadinha, dizer um “tá se achando esperta, querida?” e dar a volta pra pegar a gente do outro lado. Tentar se prevenir diante dos acontecimentos, tentar se proteger diante de qualquer chance de ser afetado: pra quê?

Eu não sei. Eu: metade desespero, metade entrega. Metade obsessão por controle, metade vontade de ser surpreendida. Achando lindo que a vida seja assim, tão fluida, tão aberta, tão imprevisível, mas segurando uma máquina de tatuagem na mão direita e esperando uma brecha pra pegar a testa dela e enfiar uma definição que tranquilize a minha ansiedade. O cabo de guerra faz parte também. Na pior das hipóteses, ainda que a ansiedade ganhe algumas brigas, a vida sempre volta nua e crua pra me lembrar que definir qualquer coisa sobre mim mesma, os outros ou o mundo não é uma opção.



[Esse texto foi originalmente publicado no meu perfil do Medium, em fevereiro de 2019.]



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