Uma responsabilidade pra chamar de minha




Tenho lembrado muito de uma frase nos últimos dias. Dizem que é do Freud. Não sei. Sei que veio direto das profundezas dos infernos pra latejar na minha cabeça: “Qual é a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”. Frase que estala feito um tapa na cara de todo mundo que já se apegou ao papel de vítima em qualquer situação — e quem nunca, né? O papel de vítima pode ser um sofá confortável em que a gente, quando senta, tem dificuldade de levantar.


Exemplo: nas últimas semanas, repeti no ouvido de quase todos os amigos que “estou sem tempo pra escrever”. Falei como forma de justificar a minha escrita emperrada, falei como explicação pros projetos não alavancados, mas falei principalmente me lamentando. Estou estressada, estou ansiosa, não estou tendo tempo pra escrever. Não ter tempo pra escrever me deixa rabugenta, me deixa pouco motivada pra levar adiante as outras tantas obrigações. Mas não ter tempo pra escrever — ou acreditar que não tenho — é também uma forma fácil de me manter acomodada sem ter que lidar com as dificuldades do processo de escrita (que são muitas). Imagina que perigo ter que admitir que eu tenho tempo, sim, pra escrever (se me organizar) e que só não estou escrevendo porque tenho medo de falhar miseravelmente na tarefa de escrever algo que preste.


Foi só quando uma amiga me confrontou sobre a minha repetição frequente do “estou sem tempo pra escrever” que percebi o mecanismo. Não era a primeira vez. Muitas outras vezes, vesti o papel de vítima e tive dificuldade de sair dele. Inclusive nas vezes em que fui de fato vítima de alguma situação, mas adiei o momento de levantar e tomar uma atitude. No fim das contas, mesmo quando somos vítimas, também temos a nossa parte de responsabilidade na desordem da qual nos queixamos. E reconhecer essa responsabilidade é a única forma de levantar do sofá e mudar a narrativa. Pouco tempo atrás, me disseram uma frase que também me marcou: “as narrativas da vítima e do sobrevivente começam no mesmo lugar”. De fato, o que muda é a forma como são conduzidas. Lembrei daquela outra: “o que você fez daquilo que te fizeram?”. Quanto mais o tempo passa, mais tenho a impressão de que importa pouco o que acontece na nossa vida, importa mais a forma como lidamos com isso e a narrativa que construímos e sustentamos a partir daí.


É válido lembrar que não estou falando sobre culpa. Entrar na culpa também é uma saída fácil, não só porque a culpa é quase um braço da nossa sociedade cristã e nós nos sentimos tão culpados o tempo todo que já nem sabemos dizer o motivo, mas também porque a culpa é muitas vezes uma forma de evitar a responsabilidade. Quem se culpa raramente está disposto a se responsabilizar. Quem se culpa também está preso naquela ruminação cíclica que não chega a lugar nenhum e que é quase cômoda. O sofrimento, em geral, pode ser muito cômodo. Quando olho pra trás e lembro de 2009, o ano em que mais sofri na minha vida, percebo também que esse foi o ano em que mais fiquei acomodada, sentadinha no meio da minha dor, esperando cair do céu uma resposta mas pouquíssimo disposta a levantar e ter o trabalho de procurar por ela.


Ultrapassando as noções de culpas e inocências, fico pensando em como é poderoso perceber que a gente pode mudar a nossa narrativa — que temos sobre ela algum controle. É nisso que penso quando falo na importância de se responsabilizar. Porque aceitar a própria responsabilidade é também uma forma de pegar as rédeas da vida e entender que a única transformação possível é nossa. Eu não posso me comprometer com a transformação do outro, eu não posso responder pelo que o outro faz ou deixa de fazer. Mas posso, sim, mudar a forma como lido com ele, posso mudar as pessoas que decido manter por perto, em suma, posso mudar a minha própria forma de estar no mundo.


O meu tempo é meu. As minhas escolhas são minhas. As minhas vivências quem carrega sou eu. O significado atribuído a elas também vem de mim.


Se isso vai ser um fardo ou um fôlego, talvez seja também uma tarefa minha dizer.



[Esse texto foi originalmente publicado no meu perfil do Medium, em maio de 2018.]

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